Para Onde Caminha o Mundo em 2026? • Diário Económico

Para Onde Caminha o Mundo em 2026? • Diário Económico

a d v e r t i s e m e n tO crescimento global será desigual com Índia, China e África a liderarem a expansão, enquanto economias maduras desaceleram. Mudanças nas cadeias de abastecimento, energia e tecnologia redesenham mercados, por entre riscos geopolíticos e incerteza

O ano de 2026 começa com um mundo a dar continuidade à consolidação da retoma pós-pandemia e a reorganizar as cadeias de abastecimento que foram desestruturadas pelas crises de 2020 a 2023. De acordo com o World Economic Outlook do Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia mundial deverá crescer cerca de 2,9%, uma desaceleração face aos 3,2% estimados para 2025, reflectindo o impacto prolongado de tensões geopolíticas e de políticas monetárias restritivas.

Os Estados Unidos deverão continuar a liderar o crescimento entre as economias avançadas, com uma previsão de 2,1%, sustentada por uma recuperação no investimento privado e pela expansão da indústria tecnológica e de energia limpa.

Na Europa, a Economist Intelligence Unit (EIU) aponta para um crescimento modesto de 1,3%, condicionado pela guerra na Ucrânia, pela inflação persistente e pela transição energética que impõe custos estruturais elevados às indústrias intensivas.

Já a China, que enfrenta uma transição económica marcada pelo abrandamento imobiliário e pela contenção do crédito, deverá crescer 4,3%, segundo o Banco Mundial. A Índia, por sua vez, continuará a ser a mais dinâmica entre as grandes economias, com uma expansão projectada de 6,5%, impulsionada pela digitalização, investimento público e vigor do consumo interno.

Energia, IA e Logística: os Motores de 2026

A Agência Internacional de Energia (AIE) estima que a procura global por energia cresça 1,7% em 2026, reflectindo o aumento da actividade industrial e a expansão das redes eléctricas verdes. O petróleo continuará relevante, mas o gás natural e as energias renováveis assumirão um peso crescente. Segundo a Bloomberg, o investimento na transição energética atingirá 2,2 biliões de dólares, dominado por energia solar, eólica e armazenamento em baterias.

O continente africano deverá manter-se como uma das regiões com maior potencial de crescimento, com uma expansão média de 4%, segundo o Banco Africano de Desenvolvimento

A inteligência artificial (IA) consolidar-se-á como o sector mais disruptivo. O McKinsey Global Institute prevê que a IA adicione até 4,4 biliões de dólares ao PIB global anual, através da automação, personalização de serviços e transformação dos fluxos logísticos e financeiros.

As empresas de logística e transporte marítimo, por sua vez, apostarão fortemente na digitalização e na descarbonização das frotas, com destaque para os corredores comerciais entre África, Ásia e Europa.

Persistem riscos geopolíticos e crises humanitárias

A incerteza geopolítica continuará a ser um dos maiores factores de risco. O Global Risk Report 2025 do Fórum Económico Mundial identifica três epicentros de instabilidade: o prolongamento da guerra na Ucrânia, a tensão entre Estados Unidos e China sobre Taiwan e a crise no Médio Oriente, num cenário que ameaça a segurança energética e o comércio marítimo.

Além disso, as crises humanitárias, alimentadas por conflitos, insegurança alimentar e alterações climáticas, deverão afectar mais de 350 milhões de pessoas, segundo as Nações Unidas. O corredor do Sahel, o Sudão e partes do Iémen e Afeganistão estarão entre as zonas mais vulneráveis.

O impacto económico destas crises traduzir-se-á em deslocações populacionais, pressões sobre orçamentos públicos e menor produtividade nas economias emergentes.

África: Entre a esperança e o risco

O continente africano deverá manter-se como uma das regiões com maior potencial de crescimento, com uma expansão média de 4%, segundo o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD). As economias mais dinâmicas incluem Etiópia, Ruanda, Quénia e Costa do Marfim, todas beneficiando de investimento em infra-estruturas e transição energética.

Moçambique, Nigéria e Angola, por seu lado, estarão entre os países onde o crescimento dependerá fortemente da estabilidade política e da execução de megaprojectos energéticos. A exploração do gás natural liquefeito em Cabo Delgado poderá consolidar o País como um dos novos intervenientes africanos no mercado global de energia, embora os riscos de segurança permaneçam elevados.

Em contrapartida, o Banco Mundial alerta que o aumento da dívida pública, a desvalorização das moedas e a dependência das importações alimentares continuarão a limitar o espaço fiscal da maioria dos Governos africanos. A África do Sul, maior economia do continente, enfrentará uma estagnação em torno de 1,2%, reflectindo problemas estruturais e crises energéticas persistentes.

As cadeias de abastecimento e a nova geoeconomia

Desde a pandemia que o mundo assiste a uma reconfiguração das cadeias de abastecimento globais. A Organização Mundial do Comércio no seu Relatório Global de 2025 assinala que cerca de 30% das empresas multinacionais já diversificaram a sua produção, num movimento que favorece a “regionalização” da produção, com a Ásia a reforçar o seu papel industrial e África a emergir como novo pólo de montagem e logística.

Os Estados Unidos e a União Europeia (UE) continuam a investir na “resiliência produtiva”, procurando reduzir a dependência da China em sectores críticos, como semicondutores, minerais estratégicos e tecnologia verde. Ao mesmo tempo, países do sudeste asiático, como Vietname, Indonésia e Malásia, têm beneficiado deste realinhamento, captando investimento industrial que antes estava concentrado no território chinês.

O desafio de crescer em tempos de contenção

O panorama de 2026 será marcado pela procura de um novo equilíbrio entre crescimento e sustentabilidade, entre inovação tecnológica e segurança e entre globalização e regionalização. Como refere a EIU, o grande desafio das economias será “crescer em tempos de contenção”, combinando prudência monetária com estímulos selectivos ao investimento produtivo.

A economia global estará, portanto, num ponto de viragem. A reorganização das cadeias de valor, a expansão da inteligência artificial, a corrida pela energia limpa e a gestão dos riscos geopolíticos definirão a nova arquitectura económica. E será neste contexto (de incertezas, mas também de oportunidades) que África poderá, finalmente, emergir como um dos protagonistas do crescimento mundial.

Texto Celso Chambisso • Fotografia  D.R.a d v e r t i s e m e n t

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