O Que Moçambique Pode Replicar e o Que Evitar • Diário
advertisemen tPaíses que investem seriamente na emancipação das mulheres crescem mais, distribuem melhor a riqueza e constroem sociedades mais resilientes. Para Moçambique, o mundo oferece exemplos claros do que fazer, como se adaptar e, principalmente, do que evitar. Desde a Conferência de Pequim de 1995, a Organização das Nações Unidas (ONU) passou a tratar a igualdade de gênero como um pilar estruturante do desenvolvimento sustentável. O princípio central é simples: não há crescimento inclusivo sem mulheres economicamente autônomas, educadas e protegidas por lei. Mas, três décadas depois, a pergunta incômoda se impõe: as nações estão realmente respondendo à altura desses compromissos ou se limitam a subscrevê-los no plano diplomático, adiando sua tradução em políticas transformadoras? Instrumentos como a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher (CEDAW) obrigam os países signatários a rever legislações trabalhistas, formas de acesso à educação, direitos reprodutivos e de representação política. Mas dados revelados anualmente pela ONU Mulheres mostram que promessas não são cumpridas. Segundo estimativas conjuntas da ONU e do Banco Mundial, a igualdade de gênero pode aumentar o PIB global em mais de 20% até 2035. Gênero, aqui, não é agenda de identidade. É política macroeconômica. Diferentes caminhos, resultados convergentes Os países que mais avançaram na igualdade de gênero não seguiram uma receita única. Alguns apostaram na lei, outros na educação, outros ainda na arquitetura da governança. O que os une não é o modelo, mas a decisão política clara de transformar a emancipação feminina em instrumento de desenvolvimento econômico e social, com resultados que são medidos em produtividade, crescimento e estabilidade. Na Islândia, a igualdade salarial deixou de ser um princípio abstrato para se tornar obrigação legal. Desde a entrada em vigor, em 2017, da certificação obrigatória de igualdade salarial, o chamado “gender pay gap” (disparidade média entre os rendimentos de homens e mulheres no mercado de trabalho) foi reduzido para menos de 5%, um dos mais baixos do mundo, enquanto a taxa de participação feminina no mercado de trabalho ultrapassa 80%, segundo dados do Fórum Econômico Mundial. O impacto se reflete em um mercado de trabalho altamente eficiente e em um sistema de bem-estar financeiramente sustentável, apoiado por uma base tributária mais ampla. A Alemanha seguiu um caminho distinto, centrado na educação técnica e científica. Programas de inclusão feminina em tecnologias, engenharias e matemática contribuíram para que a porcentagem de mulheres com formação superior em ciências e engenharia crescesse de forma consistente na última década, ajudando a compensar o envelhecimento demográfico. Segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), essa ampliação da base de talentos tem sido crucial para manter a produtividade industrial e a competitividade das exportações alemãs, em um contexto de escassez de mão de obra qualificada. No Canadá, a aposta recaiu sobre a governança. A paridade no Governo e a integração sistemática da perspectiva de gênero no orçamento público permitiram direcionar recursos para políticas com maior retorno social. Avaliações oficiais indicam que programas desenhados com essa visão apresentam maior eficiência na redução da pobreza, melhor desempenho em saúde e educação e menor pressão fiscal no médio prazo, reforçando a ideia de que igualdade também é racionalidade fiscal. Persistem disparidades no acesso ao crédito empresarial e à propriedade de ativos produtivos, demonstrando que presença política não elimina automaticamente desigualdade econômica Ruanda não é exemplo no respeito aos direitos humanos, mas o Parlamento é formado por mais de 60% de mulheres. Após o genocídio de 1994, a presença feminina se traduziu em reformas agrárias inclusivas, maior investimento em saúde materna e educação básica e melhorias consistentes nos indicadores sociais, contribuindo para taxas de crescimento econômico entre as mais altas da África nas últimas duas décadas. Ásia: a prova de que não há receita universal A Ásia ilustra como o crescimento econômico, quando não acompanhado por inclusão de gênero, pode gerar prosperidade aparente no curto prazo, mas produzir bloqueios estruturais profundos mais tarde. Em vários países, normas sociais conservadoras, culturas empresariais rígidas e modelos de trabalho pouco compatíveis com a vida familiar mantiveram as mulheres à margem da liderança econômica, com impactos visíveis na demografia, na produtividade e na sustentabilidade do crescimento. Na Coreia do Sul, o milagre econômico que catapultou a economia do país não se traduziu em uma verdadeira igualdade entre homens e mulheres. O país tem um dos piores indicadores da OCDE em termos de disparidade salarial, com um fosso de gênero de mais de 30%, o que se reflete, por exemplo, em um percentual de mulheres em cargos de alta gerência inferior a 20%. Em um contexto em que a progressão profissional feminina segue fortemente condicionada pela maternidade e pela dificuldade de conciliar vida familiar e carreira, muitas mulheres adiam ou optam por não ter filhos. A taxa de fecundidade caiu assim para cerca de 0,7 filhos por mulher — uma das mais baixas do mundo — acelerando o envelhecimento da população e agravando a escassez de mão de obra. O Japão enfrenta uma contradição semelhante. Apesar de altos níveis de escolaridade feminina — as mulheres representam mais de 50% dos graduados universitários —, sua presença em cargos executivos permanece abaixo de 15%. Essa sub-representação limita o uso total do capital humano disponível e pode reduzir a diversidade de perspectivas na gestão empresarial. Em contraste, Bangladesh seguiu um caminho distinto ao integrar massivamente mulheres na indústria têxtil orientada para a exportação. Atualmente, cerca de 80% dos trabalhadores do setor são mulheres, e o vestuário representa a esmagadora maioria das exportações do país. Embora este modelo assente em salários baixos e enfrente críticas quanto às condições laborais, esteve associado a uma redução significativa da pobreza extrema, ao aumentoda escolarização das raparigas e a uma maior autonomia económica feminina. O caso demonstra que, mesmo em contextos conservadores e de baixa renda, a participação das mulheres na economia formal pode funcionar como catalisadora de transformação socioeconômica, ainda que não dispense reformas estruturais que promovam maior qualificação, proteção ao trabalho e diversificação produtiva. O extremo da exclusão feminina No Afeganistão, as restrições impostas à educação secundária e universitária e à participação feminina no trabalho formal tiveram impacto imediato na economia. Avaliações da ONU e do Banco Mundial estimam que a exclusão das mulheres custa ao país entre 20% e 30% de seu PIB anual. Mais da metade da população feminina está atualmente fora da atividade econômica formal, reduzindo drasticamente a renda per capita e aumentando a dependência de ajuda externa. O resultado é um país onde cerca de dois terços da população precisam de assistência humanitária, enquanto o sistema de saúde e educação operam em condições mínimas. O Iêmen combina conflito prolongado com normas sociais profundamente restritivas. A participação feminina na força de trabalho permanece abaixo de 10%, uma das mais baixas do mundo. Segundo agências humanitárias internacionais, mais de 80% da população vive abaixo da linha da pobreza e a insegurança alimentar atinge milhões de pessoas. A exclusão econômica das mulheres agrava o colapso da produtividade agrícola e limita a recuperação industrial, criando um ciclo em que guerra e desigualdade de gênero se reforçam mutuamente. Benvida Levi, primeira-ministra de Moçambique Na Nigéria, o problema não é uma proibição formal, mas barreiras sociais. Apesar de ser a maior economia africana em termos de PIB, menos de 40% das mulheres participam do mercado de trabalho formal e o acesso feminino ao crédito agrícola e à propriedade da terra permanece significativamente menor do que o dos homens. Estudos do Banco Mundial indicam que fechar a lacuna de gênero no emprego poderia aumentar o PIB nigeriano em vários pontos percentuais no médio prazo. Em um país onde a pobreza afeta dezenas de milhões de pessoas, essa exclusão representa um desperdício econômico em grande escala. África entre avanços institucionais e bloqueios estruturais A África se tornou um dos espaços mais paradoxais do debate global sobre igualdade de gênero. O continente registra alguns dos progressos políticos mais rápidos do mundo na representação feminina, mas, simultaneamente, mantém barreiras econômicas profundas que impedem que esses avanços se traduzam em autonomia financeira e transformação estrutural. A tensão entre reforma institucional e realidade econômica é agora o verdadeiro teste africano. Chade e República Centro-Africana figuram entre os países com piores indicadores globais de igualdade de gênero: a baixa escolaridade feminina, a alta taxa de casamentos precoces e a reduzida participação econômica limitam drasticamente o crescimento. A Namíbia é frequentemente citada como um caso positivo em representação política. As mulheres ocupam cerca de 44% das cadeiras parlamentares, resultado de políticas partidárias de paridade e um compromisso constitucional com a igualdade. No entanto, dados do Banco Mundial indicam que persistem disparidades no acesso ao crédito empresarial e à propriedade de ativos produtivos, demonstrando que presença política não elimina automaticamente desigualdade econômica. A Etiópia protagonizou um avanço notável quando, em 2018, nomeou um governo com 50% de ministras mulheres, além de uma presidente da República. Esse gesto simbólico teve reflexos institucionais importantes, mas o país continua enfrentando desafios estruturais: a participação feminina no mercado de trabalho formal permanece limitada e as desigualdades rurais continuam profundas, especialmente no acesso à terra e financiamento agrícola. Qual o papel das tecnologias nesse cenário? O Quênia apresenta avanços relevantes na inclusão financeira feminina. A expansão dos serviços de pagamento móvel, como o M-Pesa, permitiu que milhões de mulheres acessassem instrumentos financeiros básicos. A digitalização da economia pode ser imune ao gênero e promover a presença feminina na economia, tornando-a mais forte. Texto Celso Chambisso • Fotografia DRa dvertisement



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