{"id":21184,"date":"2026-04-28T03:32:51","date_gmt":"2026-04-28T03:32:51","guid":{"rendered":"https:\/\/sabetudo.co.mz\/blog\/nancy-folbre-quando-a-economia-se-esquece-das-mulheres\/"},"modified":"2026-04-28T03:32:51","modified_gmt":"2026-04-28T03:32:51","slug":"nancy-folbre-quando-a-economia-se-esquece-das-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sabetudo.co.mz\/blog\/nancy-folbre-quando-a-economia-se-esquece-das-mulheres\/","title":{"rendered":"Quando a Economia Esquece as Mulheres \u2022 Di\u00e1rio Econ\u00f3mico"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p>advertisemen tNo m\u00eas em que se celebra a mulher mo\u00e7ambicana, visitamos o pensamento de Nancy Folbre, a economista que deu aten\u00e7\u00e3o \u00e0s horas de trabalho invis\u00edveis de milh\u00f5es de mulheres que mant\u00eam a economia funcionando, mas est\u00e3o fora das estat\u00edsticas. Nancy Folbre, economista norte-americana, foi pioneira ao demonstrar que o trabalho n\u00e3o remunerado n\u00e3o \u00e9 perif\u00e9rico \u00e0 economia, mas sim uma de suas bases silenciosas. Cuidar de crian\u00e7as, idosos, doentes ou cuidar da gest\u00e3o da casa permaneceu fora do radar. Foi justamente contra essa \u201ccegueira\u201d estrutural que Folbre se insurgiu. Os trabalhadores s\u00f3 chegam ao emprego porque algu\u00e9m cuidou deles, os alimentou, educou e protegeu. Porque algu\u00e9m sustentou sua reprodu\u00e7\u00e3o social. Ao longo de sua carreira acad\u00eamica, Nancy Folbre questionou a neutralidade de g\u00eanero da economia e exp\u00f4s o vi\u00e9s impl\u00edcito de modelos que tratam o \u201ccuidar de outros\u201d como um \u201crecurso inesgot\u00e1vel\u201d, sempre dispon\u00edvel, sendo quase sempre fornecido por mulheres. O cuidado como pilar invis\u00edvel da produ\u00e7\u00e3o Um dos conceitos centrais no pensamento de Nancy Folbre \u00e9 o da \u201ceconomia do cuidado\u201d. Para a autora, o cuidado n\u00e3o \u00e9 apenas uma atividade privada ou moral. \u00c9 um bem econ\u00f4mico com caracter\u00edsticas pr\u00f3prias: gera externalidades positivas, produz benef\u00edcios sociais de longo prazo e n\u00e3o responde facilmente \u00e0 l\u00f3gica do lucro. O problema, destaca Folbre, \u00e9 que os mercados tendem a desvalorizar o cuidado, porque quem cuida raramente captura os benef\u00edcios totais de seu trabalho. Educar uma crian\u00e7a saud\u00e1vel e capaz beneficia toda a sociedade, mas o custo recai quase exclusivamente sobre quem cuida, geralmente mulheres. Em livros como The Invisible Heart (O Cora\u00e7\u00e3o Invis\u00edvel, 2001) e Greed, Lust and Gender (Gan\u00e2ncia, Lux\u00faria e G\u00eanero, 2009), Folbre desmonta a ideia de que os indiv\u00edduos agem apenas por interesse pr\u00f3prio e mostra como a coopera\u00e7\u00e3o, a empatia e a responsabilidade social s\u00e3o for\u00e7as econ\u00f4micas reais, embora mal medidas. Ignorar essas dimens\u00f5es, ele argumenta, distorce pol\u00edticas p\u00fablicas, sistemas fiscais e decis\u00f5es de investimento. Mo\u00e7ambique: quando a teoria encontra a realidade Em Mo\u00e7ambique, as id\u00e9ias de Folbre ganham uma nitidez particular. Dados produzidos por organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, centros de pesquisa e plataformas como o F\u00f3rum Mulher mostram, de forma consistente, que as mulheres suportam a maior parte do trabalho n\u00e3o remunerado, especialmente em \u00e1reas rurais e suburbanas. Cuidar da fam\u00edlia, acompanhar crian\u00e7as e idosos, garantir a coes\u00e3o dom\u00e9stica, tudo isso consome tempo, energia e \u00e0s custas de oportunidades econ\u00f4micas Cuidar da fam\u00edlia, garantir \u00e1gua, lenha, comida, acompanhar crian\u00e7as e idosos, garantir a coes\u00e3o dom\u00e9stica s\u00e3o atividades que consomem tempo, energia e obrigam a deixar de lado outras oportunidades econ\u00f4micas. O resultado \u00e9 uma dupla penaliza\u00e7\u00e3o: menos tempo para o trabalho remunerado e menor reconhecimento social pela contribui\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica real. O mercado de trabalho mo\u00e7ambicano continua marcado por desigualdades salariais, alta informalidade e fraca prote\u00e7\u00e3o social, afetando desproporcionalmente as mulheres. O que Folbre descreve em termos te\u00f3ricos se manifesta, em Mo\u00e7ambique, como uma experi\u00eancia cotidiana. Emancipa\u00e7\u00e3o e sobrecarga Uma das for\u00e7as (e tamb\u00e9m uma das tens\u00f5es) do pensamento de Nancy Folbre est\u00e1 em sua recusa em romantizar o cuidado. Reconhecer seu valor econ\u00f4mico n\u00e3o significa aceitar que ele continue a ser atribu\u00eddo quase exclusivamente \u00e0s mulheres. Aqui surge uma contradi\u00e7\u00e3o central: como valorizar o cuidado sem refor\u00e7ar a divis\u00e3o tradicional de g\u00eanero? Como transformar reconhecimento em redistribui\u00e7\u00e3o de tempo, de recursos e de responsabilidades? Em Mo\u00e7ambique, essa quest\u00e3o \u00e9 particularmente sens\u00edvel. Muitas pol\u00edticas de emancipa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da mulher promovem o empreendedorismo e a inser\u00e7\u00e3o no mercado, sem aliviar a carga dom\u00e9stica. O resultado \u00e9 uma emancipa\u00e7\u00e3o incompleta: mais participa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, sim, mas muitas vezes \u00e0 custa de jornadas mais longas e maior esgotamento. Folbre alerta para esse risco. Segundo a economista, a igualdade econ\u00f4mica exige acesso ao mercado, mas tamb\u00e9m uma reorganiza\u00e7\u00e3o social do cuidado, envolvendo Estado, mercado e homens. O Estado, o mercado e o que fica no meio Outro ponto cr\u00edtico frequentemente debatido do pensamento de Folbre \u00e9 o papel do Estado. A autora defende pol\u00edticas p\u00fablicas ativas: licen\u00e7as parentais, servi\u00e7os de cuidados acess\u00edveis, investimento em educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade e sistemas fiscais que reconhe\u00e7am o valor do trabalho reprodutivo. Os cr\u00edticos argumentam que essa abordagem pode gerar depend\u00eancia excessiva do Estado ou sobrecarregar finan\u00e7as p\u00fablicas fr\u00e1geis. Em pa\u00edses como Mo\u00e7ambique, onde os recursos s\u00e3o limitados e as prioridades concorrentes, o debate se torna ainda mais complexo. Ainda assim, a reflex\u00e3o permanece pertinente: quem paga o custo de n\u00e3o investir no cuidado? A resposta, muitas vezes, vem na forma de desigualdade persistente, pobreza intergeracional e baixa produtividade no longo prazo. Pensar a mulher para al\u00e9m das estat\u00edsticas Celebrar o Dia da Mulher Mo\u00e7ambicana, em 7 de abril, n\u00e3o deve ser apenas relembrar conquistas hist\u00f3ricas ou refor\u00e7ar discursos simb\u00f3licos. Deve ser tamb\u00e9m um convite para questionar os fundamentos econ\u00f4micos que continuam a tornar invis\u00edvel grande parte da contribui\u00e7\u00e3o feminina. Nancy Folbre n\u00e3o oferece respostas simples (e talvez essa seja sua maior contribui\u00e7\u00e3o). Seu pensamento obriga a economia a olhar para o que prefere n\u00e3o medir e a pol\u00edtica a enfrentar custos que n\u00e3o aparecem nos or\u00e7amentos, mas pesam diariamente na vida das mulheres. Num pa\u00eds onde o desenvolvimento tem que passar, inevitavelmente, pela inclus\u00e3o efetiva da mulher na economia, pensar o cuidado como um valor econ\u00f4mico (e n\u00e3o como um obst\u00e1culo) pode ser um passo decisivo para um crescimento mais justo, mais realista e mais sustent\u00e1vel. Texto Celso Chambisso \u2022 Fotografia DRa dvertisement <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>advertisemen tNo m\u00eas em que se celebra a mulher mo\u00e7ambicana, visitamos o pensamento de Nancy Folbre, a economista que deu aten\u00e7\u00e3o \u00e0s horas de trabalho invis\u00edveis de milh\u00f5es de mulheres que mant\u00eam a economia funcionando, mas est\u00e3o fora das estat\u00edsticas. 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