{"id":4352,"date":"2025-08-31T16:14:49","date_gmt":"2025-08-31T16:14:49","guid":{"rendered":"https:\/\/sabetudo.co.mz\/blog\/fogo-torna-dificil-futuro-de-aldeia-do-fundao-que-ganhou-nova-vida-com-a-cerejautm_sourcerss-economiautm_mediumrssutm_campaignrssfeed\/"},"modified":"2025-08-31T16:14:49","modified_gmt":"2025-08-31T16:14:49","slug":"fogo-torna-dificil-futuro-de-aldeia-do-fundao-que-ganhou-nova-vida-com-a-cerejautm_sourcerss-economiautm_mediumrssutm_campaignrssfeed","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sabetudo.co.mz\/blog\/fogo-torna-dificil-futuro-de-aldeia-do-fundao-que-ganhou-nova-vida-com-a-cerejautm_sourcerss-economiautm_mediumrssutm_campaignrssfeed\/","title":{"rendered":"Fogo torna dif\u00edcil futuro de aldeia do Fund\u00e3o que ganhou"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media-manager.noticiasaominuto.com\/1920\/45560309.webp?crop_params=eyJsYW5kc2NhcGUiOnsiY3JvcFdpZHRoIjoyNTAwLCJjcm9wSGVpZ2h0IjoxNDA2LCJjcm9wWCI6MjksImNyb3BZIjo2NH0sInBvcnRyYWl0Ijp7ImNyb3BXaWR0aCI6OTYwLCJjcm9wSGVpZ2h0IjoxNzA3LCJjcm9wWCI6NTA4LCJjcm9wWSI6MH19\" \/><\/p>\n<p>                                                    Na Enxabarda, aldeia com perto de 200 pessoas situada na Serra da Gardunha, as hist\u00f3rias repetem-se entre produtores, que trocaram h\u00e1 20 ou 25 anos outros empregos por projetos de agricultura, mais especificamente a cereja, transformando montes onde predominava mato em pomares que estavam em plena produ\u00e7\u00e3o. Com a passagem do inc\u00eandio que come\u00e7ou em Arganil e que por ali desceu no espa\u00e7o de horas a Serra de Lavacolhos e rodeou a aldeia, repetem-se as hist\u00f3rias de perdas e v\u00e3o-se contabilizando os hectares de cerejal ardido. No caf\u00e9, ou se fala do fogo ou se fica em sil\u00eancio, conta \u00e0 ag\u00eancia Lusa Sara Martins, 42 anos, que tem pomares de 2013, seguindo os passos da sua m\u00e3e que trocou o emprego fabril pela cereja, fruto que \u00e9 tamb\u00e9m marca de toda uma regi\u00e3o. \u00c0s tantas, Sara admite que j\u00e1 nem sabe se prefere o sil\u00eancio se o repetir das hist\u00f3rias e dos desabafos sobre o fogo. Entre a Sara, a m\u00e3e Maria Jos\u00e9, o marido e o pai, s\u00e3o cerca de 50 hectares de pomares espalhados pelas encostas pr\u00f3ximas da Enxabarda. Ter\u00e3o ardido entre sete e oito hectares, mas outros oito t\u00eam apenas dois anos e ainda n\u00e3o produzem: &#8220;Os filhos mais novos&#8221;, conta. Depois de &#8220;dois murros&#8221; neste ano e de em 2024 com granizo e geada que afetaram uma parte consider\u00e1vel da campanha, o inc\u00eandio obriga os produtores a pensar &#8220;duas vezes nos investimentos que se fazem&#8221;, diz \u00e0 ag\u00eancia Lusa Sara Martins. A agricultora formada em agronomia conduz um jipe \u200b\u200bpor uma estrada de terra onde se v\u00ea pinhal e mato ardido, entre pomares tamb\u00e9m queimados. Outros, verdes, contam hist\u00f3rias de resist\u00eancia sem um pingo de \u00e1gua que tenha l\u00e1 sido colocado quando as chamas passaram. Olhando para a forma como o inc\u00eandio andou por aquela serra e para a resist\u00eancia que v\u00e1rios pomares garantiram, Sara lamenta a falta de planeamento e organiza\u00e7\u00e3o, considerando que as m\u00e1quinas de rasto n\u00e3o deveriam andar apenas nas &#8220;horas dos nervos&#8221; dos inc\u00eandios, mas meses antes a fazer estrad\u00f5es e aceiros &#8220;com tempo e com planos&#8221;. &#8220;Isto s\u00e3o cerejeiras&#8221;, diz Sara, apontando para \u00e1rvores enegrecidas, sendo logo corrigida pela m\u00e3e, que tenta conter as l\u00e1grimas: &#8220;Eram&#8221;. Depois de ter estudado no Algarve e ter estado seis a sete anos fora da Enxabarda, Sara regressou \u00e0 sua terra e tinha pomares desde 2013, tendo come\u00e7ado a colher cereja h\u00e1 &#8220;meia d\u00fazia de anos&#8221;. Al\u00e9m das \u00e1rvores queimadas, conta, \u00e9 preciso olhar para cerejeiras que, mesmo n\u00e3o tendo ardido, poder\u00e3o n\u00e3o dar fruto no pr\u00f3ximo ano. Maria Jos\u00e9 Martins mostra \u00e0 Lusa gomos florais secos: &#8220;Isto era a cereja do pr\u00f3ximo ano. Est\u00e3o todos queimados&#8221;. Al\u00e9m dos gomos florais secos, o &#8216;stress&#8217; e calor poder\u00e1 levar a &#8220;muito abordo na fruta&#8221; para o ano. O aumento das pragas e a perda de polinizadores s\u00e3o outros riscos a ter em conta, nota Sara Martins, temendo uma pr\u00f3xima campanha, com o que n\u00e3o ardeu, mais fraca. Depois de o inc\u00eandio rodear a aldeia e passar a 19 de agosto, Sara subiu logo a serra na madrugada do dia seguinte para ver o que se tinha salvado. Com tratores e pulverizadores, ainda foram combatendo chamas e reacendimentos. Para Sara, nesse dia seguinte \u00e0 passagem das chamas, apenas queria perceber se o que tinha escapado dava para continuar por ali. &#8220;Na primeira noite, pensei que n\u00e3o podia continuar. Mas d\u00e1. D\u00e1 para continuar&#8221;, vinca Sara. Patrique Martins, de 46 anos, ainda nem conseguiu pegar nas papeladas que j\u00e1 recebeu para fazer o levantamento das perdas: &#8220;Estou sem vontade para o fazer&#8221;. H\u00e1 20 anos que apostou na cereja e, quando o fogo chegou, focou-se em salvar o armaz\u00e9m, num fogo &#8220;r\u00e1pido&#8221; que transformou a tarde em noite. Apesar disso, diz que \u00e9 dos &#8220;mais afortunados&#8221;. Perdeu tr\u00eas em 40 hectares de pomar. J\u00e1 Gabriel Martins, de 58 anos, perdeu 40% da sua produ\u00e7\u00e3o de mirtilos e quatro a cinco hectares de pomar de um total de 15 hectares de cerejais, que tamb\u00e9m eram mato antes de mudar de vida e trocar o trabalho de eletricista pela agricultura. &#8220;Olho para o futuro com uma apreens\u00e3o muito grande&#8221;, diz o produtor, em d\u00favida sobre o que fazer com \u00e1rvores que poder\u00e3o n\u00e3o recuperar. &#8220;V\u00e3o ser seis anos dif\u00edceis&#8221; at\u00e9 as novas \u00e1rvores darem fruto, constatou, notando que est\u00e1 &#8220;desarmado&#8221;, que at\u00e9 mesmo o pinhal (que servia para compensar piores campanhas) perdeu-se todo com o inc\u00eandio. Jos\u00e9 Pereira, de 57 anos, admite n\u00e3o ter vontade nenhuma de recome\u00e7ar depois de ter perdido mais de metade dos pomares. &#8220;Tenho um filho com 15 anos e uma filha com 18, que entrou na universidade. N\u00e3o sei como vai ser, mas vou ter de fazer alguma coisa&#8221;, vinca. Lu\u00eds Ribeiro, que passou a dedicar-se \u00e0 cereja h\u00e1 15 anos, diz que foi a cereja &#8220;que deu a alma \u00e0 Enxabarda&#8221;. &#8220;At\u00e9 h\u00e1 uns 20 anos n\u00e3o havia tanta cultura. Antes, as pessoas daqui ou viviam da pequena agricultura ou emigravam&#8221;, disse, acreditando que a Enxabarda precisava agora &#8220;de um empurr\u00e3o&#8221; face ao embate que levou. &#8220;\u00c9 preciso deixar baixar a cinza e fazer contas se vale a pena ou n\u00e3o recuperar e trabalhar a partir desta cinza&#8221;, conta Sara Martins. A m\u00e3e ainda est\u00e1 a tentar assimilar tudo o que perdeu, depois de &#8220;muito trabalho, muito tempo&#8221;, a transformar mata em cerejal. Nos dias seguintes, tal como a filha, Maria Jos\u00e9 andou a tentar combater toda a chama e reacendimento que via. &#8220;Foi defender o cora\u00e7\u00e3o&#8221;, disse. Leia Tamb\u00e9m: \u00c1rea ardida no Fund\u00e3o ultrapassa os 10 mil hectares, diz autarca<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Enxabarda, aldeia com perto de 200 pessoas situada na Serra da Gardunha, as hist\u00f3rias repetem-se entre produtores, que trocaram h\u00e1 20 ou 25 anos outros empregos por projetos de agricultura, mais especificamente a cereja, transformando montes onde predominava mato em pomares que estavam em plena produ\u00e7\u00e3o. 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