“Empresas precisam de olhar para a energia de forma

As empresas têm de começar a olhar para a energia de forma estratégica, para estarem melhor preparadas para choques externos como os que vêm do conflito no Oriente Médio, defende Luís Pinho, country director da Helexia Portugal. Como? Isso significa “perceber sua exposição real aos custos de energia, investir em eficiência energética, reduzir desperdícios e apostar em soluções que tragam maior autonomia e previsibilidade”. Em entrevista ao Notícias ao Minuto, Luís Pinho explica que Portugal está hoje mais bem preparado do que no passado, em grande parte devido à aposta nas energias renováveis, mas admite que o país continua dependente da importação de petróleo e gás natural, “o que significa que choques globais continuam a ter impacto na economia”. Qual o impacto que a guerra no Oriente Médio pode ter no setor de energia no curto e médio prazo? No curto prazo, o efeito mais imediato é a volatilidade nos mercados de energia. Sempre que há instabilidade em uma região crítica para a produção ou rotas de transporte de energia, os mercados tendem a reagir rapidamente, incorporando um chamado prêmio de risco geopolítico. Isso se reflete, por exemplo, no preço do Brent, que continua sendo a principal referência internacional do petróleo, ou nos índices europeus de gás natural, como o TTF (Title Transfer Facility). Mesmo sem uma interrupção física da produção, basta a percepção de risco para gerar pressão nos preços. Foi isso que vimos em vários momentos da história recente: durante a Primavera Árabe, em 2011, os temores sobre a produção no norte da África e no Oriente Médio levaram o Brent a subir para níveis próximos de 125 dólares por barril; mais recentemente, a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 causou uma escalada histórica nos preços do gás na Europa, com o TTF atingindo valores nunca vistos. A médio prazo, se a instabilidade se prolongar, os impactos podem tornar‑se mais estruturais, com maior competição por recursos energéticos, custos mais elevados e uma previsibilidade muito reduzida para empresas e economias. As empresas portuguesas serão afetadas? Se sim, por quê? Como podem se preparar? Sim, ainda que de forma indireta. Portugal tem hoje um sistema elétrico fortemente baseado em energias renováveis, o que é uma vantagem clara. No entanto, o país continua exposto aos preços internacionais do petróleo, especialmente nos transportes, e ao preço do gás natural, que continua a influenciar o mercado europeu de eletricidade, mesmo quando o gás representa uma parcela menor da produção. Luís Pinho é country director da Helexia Portugal, multinacional francesa do grupo Voltalia, especialista no desenvolvimento de soluções energéticas sustentáveis© Helexia Portugal Além disso, conflitos no Oriente Médio tendem a afetar cadeias logísticas globais. Basta lembrar o impacto recente das tensões no Mar Vermelho e no Canal de Suez, que aumentaram os custos de transporte marítimo e pressionaram os preços de matérias‑primas e bens intermediários. Para se preparar, as empresas precisam passar a olhar para a energia de forma estratégica: entender sua exposição real aos custos de energia, investir em eficiência energética, reduzir desperdícios e investir em soluções que tragam maior autonomia e previsibilidade, como autoconsumo, contratos de energia de longo prazo e sistemas inteligentes de gestão de energia. Quando os efeitos vão começar a se sentir? Nos mercados financeiro e de energia, o impacto é quase imediato. Os preços do petróleo, gás e frete marítimo muitas vezes reagem em dias ou até horas. Já nas empresas, o efeito normalmente surge com algum descasamento, ao longo das semanas ou meses seguintes, quando esses aumentos se refletem nas contas de energia, nos contratos indexados ou nos custos logísticos. Se o conflito se prolongar, os efeitos deixam de ser apenas conjunturais e passam a influenciar decisões de investimento, margens de rentabilidade e competitividade industrial, como aconteceu na Europa após 2022, quando muitas empresas intensivas em energia tiveram de rever planos de produção ou deslocalizar investimentos. Portugal está preparado para esses choques externos? Portugal está claramente mais bem preparado do que no passado, especialmente graças ao forte crescimento das energias renováveis. Em muitos períodos do ano, mais de 60% da eletricidade consumida no país é produzida a partir de fontes renováveis, como eólica, hídrica e solar, o que reduz a dependência direta de combustíveis fósseis na geração elétrica. Ainda assim, o país continua dependente da importação de petróleo e gás natural, o que significa que choques globais continuam a impactar a economia. A preparação envolve continuar a reforçar a capacidade renovável, melhorar a eficiência energética e aumentar a flexibilidade do sistema, incluindo armazenamento e gerenciamento de demanda. De que forma as energias renováveis se apresentam como alternativa? Eles podem mitigar o impacto da guerra ou ainda estamos longe desse objetivo? As energias renováveis são hoje uma das principais ferramentas para reduzir a vulnerabilidade geopolítica do setor de energia. Produzir energia localmente significa reduzir a exposição a crises em regiões produtoras de petróleo e gás. A experiência europeia pós‑2022 mostrou isso de forma clara: os países com maior penetração renovável conseguiram amortecer melhor o choque dos preços do gás. No entanto, a transição ainda não foi concluída. Muitos setores continuam dependentes de combustíveis fósseis, especialmente transporte e algumas indústrias intensivas em calor. Por isso, a resposta não é apenas instalar mais renováveis, mas combinar produção renovável, eficiência energética, eletrificação de consumo onde faz sentido, armazenamento e gestão inteligente de energia. Esse conjunto de soluções é o que permite construir sistemas energéticos mais resilientes, previsíveis e menos expostos a choques externos como os que estamos vivendo atualmente. Leia Também: Diesel vai (disparar e) voltar a custar mais que gasolina: Os preços



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