Classificação de Risco de Moçambique Levanta Alertas, Mas
advertisemen tA recente classificação da consultoria internacional Oxford Economics, que coloca Moçambique entre as economias mais arriscadas da África, reacendeu o debate sobre a sustentabilidade macroeconômica do País e os desafios estruturais que seguem influenciando a confiança dos investidores internacionais. Na publicação, a entidade britânica destaca que Moçambique aparece com mais de 75 pontos, a maior pontuação entre as 25 nações analisadas. No relatório, Maláui e Zimbábue ocupam a segunda e a terceira posições, respectivamente, enquanto Angola aparece em sétimo lugar, apontando ainda vulnerabilidades associadas à dívida pública, à fragilidade cambial e à redução das reservas internacionais, fatores que têm pressionado a estabilidade econômica. Ainda assim, economistas entrevistados pelo Diário Económico defendem que a avaliação deve ser analisada com “cautela”, pois nem todos os indicadores refletem necessariamente uma situação de crise profunda. Para o economista e professor da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), Moisés Nhanombe, a classificação representa principalmente um sinal de alerta sobre os riscos macroeconômicos, mas não um diagnóstico definitivo sobre a economia nacional. “A avaliação da Oxford Economics deve ser interpretada com cautela. A pontuação é baseada em indicadores de risco macroeconômico, fiscal, cambial e político que revelam vulnerabilidades, mas isso não significa necessariamente que Moçambique esteja em uma situação mais crítica do que todos os países africanos”, explicou. Segundo Nhanombe, algumas economias do continente africano enfrentam crises estruturais mais profundas, como é o caso do Sudão, frisando que a percepção de risco em relação a Moçambique também resulta de fatores conjunturais e expectativas de mercado, “não podendo ser assumida como um diagnóstico definitivo”. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, o País registou uma recessão anual de 0,52% em 2025 Pressão da dívida pública e impacto na confiança dos investidores Contudo, o interveniente chamou a atenção para a fraca gestão da dívida pública que tem sido um dos principais factores de vulnerabilidade macroeconómica em Moçambique, recordando que, após a crise das chamadas “dívidas ocultas”, a credibilidade fiscal do Estado foi afectada, limitando o acesso ao financiamento externo em condições favoráveis e aumentando a dependência de apoio de instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI). Segundo o economista, um dos principais desafios atuais continua sendo o peso do serviço da dívida sobre as finanças públicas, esclarecendo que “quando grande parte das receitas do Estado é destinada ao pagamento de juros e amortizações, reduz-se o espaço fiscal para investimentos essenciais, como infraestrutura, saúde e educação, o que pode limitar o crescimento econômico”. “Além disso, altos níveis de endividamento aumentam a percepção de risco dos investidores, podendo pressionar o câmbio e favorecer a desvalorização do metical”, disse, tendo elucidado que a dívida pública não é necessariamente um problema insolúvel quando administrada com transparência, sustentabilidade fiscal e maior eficiência do gasto público, “podendo inclusive financiar investimentos produtivos e apoiar o desenvolvimento econômico.” Seguindo a mesma linha de ideias, o economista e analista Clésio Foia afirmou que relatórios internacionais que classificam economias como mais arriscadas podem impactar diretamente no comportamento dos mercados financeiros e dos investidores. Clésio Foia “Quando um país é classificado com alto risco, os investidores internacionais tendem a ser mais cautelosos, o que pode reduzir a confiança e tornar o financiamento externo mais caro para o Estado e as empresas”, explicou. Em sua explanação, elucidou que a percepção de risco pode levar instituições financeiras a exigir taxas de juros mais altas ou garantias adicionais para conceder financiamento a projetos no País. “Pode haver maior seletividade por parte dos investidores, que passam a privilegiar setores considerados mais seguros, como a indústria extrativa, deixando outros setores com menor capacidade de atrair investimentos”, acrescentou. Foia avançou ainda que essa dinâmica pode reforçar o fenômeno conhecido como “economia de duas velocidades”, em que megaprojetos ligados aos recursos naturais apresentam forte dinamismo, enquanto os setores como agricultura, indústria de transformação, comércio e serviços continuam com crescimento limitado. Desvalorização do metical pode pressionar inflação Outro ponto de preocupação é a possibilidade de uma forte desvalorização da moeda nacional. Embora não represente necessariamente uma nova crise econômica, a depreciação cambial pode ter impactos significativos sobre a inflação e o custo de vida. No relatório mais recente, a Oxford Economics avançou que prevê uma desvalorização do metical de cerca de 25% até o final do ano. Contudo, previsão igual já havia sido feita em Janeiro quanto a consultora alertou que Moçambique poderá enfrentar uma desvalorização gradual, como resposta à acentuada escassez de reservas em moeda externa e à sobrevalorização cambial que tem marcado os últimos anos. Na ocasião, a instituição afirmou que a correção cambial no País poderia ser uma das condições exigidas no âmbito das negociações para um novo acordo de financiamento com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Nesse sentido, economistas ouvidos pelo DE destacaram que, em uma economia fortemente dependente de importações — especialmente de combustíveis, alimentos e bens intermediários —, a desvalorização do metical tende a encarecer produtos importados e pressionar os preços no mercado interno. “A depreciação cambial pode aumentar o custo do serviço da dívida externa, agravando as restrições fiscais e aumentando a percepção de risco dos investidores”, frisaram. Gás natural pode melhorar perspectivas Apesar dos riscos apontados, economistas reconhecem que o potencial do gás natural pode alterar significativamente as perspectivas econômicas do País nos próximos anos, destacando que os projetos de exploração no Rovuma têm potencial para aumentar as exportações, gerar receitas fiscais significativas e reforçar as reservas internacionais, contribuindo para melhorar a balança de pagamentos. Moisés Nhanombe lembrou que o País ainda enfrenta desafios como baixa diversificação produtiva, dependência de megaprojetos, fragilidades na gestão da dívida pública e vulnerabilidade a choques externos, frisando igualmente que há também o risco da chamada “doença holandesa”, quando a abundância de recursos naturais pode prejudicar outros setores produtivos. “O impacto positivo dependerá da qualidade da gestão econômica e institucional, o gás natural pode melhorar a percepção de risco no médio e longo prazo, mas não elimina por si só os desafios estruturais da economia”, elucidou. Reformas estruturais seguem urgentes Diante desse cenário, economistas defendem que o País precisa acelerar reformas estruturais para reduzir a percepção de risco e reforçar a confiança dos investidores. Entre as medidas consideradas prioritárias estão o fortalecimento da disciplina fiscal, maior transparência na gestão da dívida pública, melhoria do ambiente de negócios e diversificação da base produtiva. Foia destacou que o fortalecimento das instituições públicas e a estabilidade política são igualmente fundamentais para melhorar a credibilidade econômica do País, acrescentando que os investidores buscam por ambientes estáveis e fortes que promovam o crescimento sustentável. Por sua vez, Moisés Nhanombe considerou ser fundamental, em primeiro lugar, reforçar a disciplina fiscal e a gestão da dívida pública, garantindo maior transparência nas finanças públicas, controle do endividamento e melhor eficiência da despesa, de modo a restaurar a confiança de credores internacionais, incluindo o FMI. Moisés Nhanombe Além disso, é preciso diversificar a economia, reduzindo a dependência de megaprojetos e poucos produtos de exportação. O fortalecimento da agricultura, da indústria de transformação e das Pequenas e Médias Empresas pode ampliar a base produtiva e aumentar a resiliência econômica. “O Governo tem um papel central na recuperação da credibilidade econômica, através da promoção de reformas institucionais que fortaleçam a governança econômica, com maior foco para o combate à corrupção, melhoria da qualidade regulatória e fortalecimento das instituições de controle, fatores essenciais para aumentar a confiança dos investidores”, ressaltou. Os especialistas também argumentaram que é importante implementar políticas econômicas previsíveis que garantam estabilidade cambial, controle da inflação e sustentabilidade fiscal. “A gestão transparente das receitas do gás natural pode transformar esses recursos em investimentos produtivos, promovendo diversificação econômica e crescimento sustentável”, concluíram. Recentemente, a consultoria britânica revisou para baixo a previsão de crescimento da economia moçambicana para 0,3% este ano, abaixo dos 2,5% estimados anteriormente. Apesar da expansão de 4,67% registrada no último trimestre de 2025, a instituição antecipa agora um crescimento quase nulo em 2026. “Infelizmente, prevemos que a economia de Moçambique enfrentará mais um ano difícil em 2026”, escreveram analistas da consultoria em comentário divulgado na segunda-feira, 2 de março, sobre os dados do Produto Interno Bruto (PIB) referentes ao último trimestre de 2025. Texto: Cleusia Chirindzaa dvertisement



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