“Ainda não estamos num choque petrolífero, não podemos

"Ainda não estamos num choque petrolífero, não podemos

“Ainda não estamos em um choque do petróleo, não podemos dramatizar e ser muito alarmistas”, ressalta o ex-governador, alertando, no entanto, que “a situação é gravíssima se se prolongar no tempo”. Na opinião do especialista em energia, em termos de futuro imediato existem dois cenários. “Ou isto é contido rapidamente e, portanto, não vai ter grandes efeitos no futuro, (ou) será um episódio pontual se o conflito terminar rapidamente (…), mas atenção – nesta altura – não há nenhum sinal que o conflito vá terminar rapidamente”, salienta António Costa Silva. Se terminar rapidamente, “podemos ter aqui essa turbulência que está existindo no mercado, algum efeito na inflação, porque a inflação também já está crescendo”, já que o preço da energia “tem um impacto significativo”. “Podemos ter uma inflação temporária que vai crescer”, mas sem consequências em termos de taxa de juros e política, tanto do Banco Central Europeu (BCE) quanto do Federal Reserve (Fed) dos Estados Unidos, diz. Portanto, similar ao cenário que se passou com o ataque dos EUA ao Irã em junho do ano passado, “em que os preços do petróleo subiram e do gás”, mas como foi um conflito de 12 dias “o efeito foi temporário” e a economia se recuperou. Em suma, “um espirro, mas não haverá um resfriado prolongado” nesse cenário. Contudo, o Presidente Trump diz que o conflito “vai durar quatro a cinco semanas e tem capacidade para continuar mais”. “Penso que esta Administração americana é totalmente irresponsável, porque este conflito faz lembrar muito o que se passou no Iraque em 2003”, com similaridades “muito grandes”, prossegue. Trump ataca o Irã com base “em pressupostos errados”, que tinha mísseis balísticos e iam atingir os EUA, o que “não é verdade, é uma falácia” e há seis meses dizia que tinha obliterado “a capacidade nuclear do Irã”, enfatiza. “Há uma incoerência total e é completamente errático. Isso não significa que o regime iraniano não seja um regime execrável, porque assassinou milhares e milhares de cidadãos há poucas semanas, é uma teocracia autoritária e extremamente repressiva”, critica. Agora, “como se provou no Iraque, os regimes não se mudam, não há mudança de regime pelo exterior e, sobretudo, com uma invasão”, lembra António Costa Silva, lamentando que Israel esteja “condicionando a política externa dos EUA”, o que classifica de “inquietante” com consequências “gravíssimas”, desestabilizando todo o Oriente Médio. O regime iraniano está desesperado” e “dispara para todo lado, o que leva para um segundo cenário “mais preocupante”, que é a persistência dos preços altos no mercado. O petróleo passou a barreira dos US$ 85, o maior aumento semanal em dois anos, e o preço do gás também está muito alto, lembra. “Se o conflito persistir, os preços vão continuar a disparar” e “muito provavelmente vamos ter um surto inflacionário grande e o Banco Central Europeu e a Reserva Federal dos Estados Unidos vão ser obrigados a intervir”, admite, o que se acontecer, “vai ser muito difícil para as economias. Os mercados já estão antecipando “um aumento de 25 pontos base na taxa de juro, há 50% de probabilidade” este ano, numa reversão da tendência que existia. “Se as taxas de juros realmente aumentarem, é um sério risco porque vai alargar o ‘spread’ das obrigações soberanas dos países do euro e, portanto, lá voltamos de nós àquela situação anterior”, adverte. Atualmente, os impactos mais significativos são a paralisação de infraestruturas críticas em toda a grande região do Médio Oriente, sublinha. Na Península Arábica, mais Irã e Iraque concentram-se 65% das reservas mundiais de petróleo e gás. “Nesta altura, duas das mais críticas infraestruturas estão paralisadas: uma tem a ver com a Arábia Saudita, que é o porto de Ras Tanura, que está ligado ao maior complexo petroquímico do mundo, que é o complexo de Abequeia (Abqaiq), onde se processam oito milhões de barris por dia” e tem ao lado o maior campo de petróleo do mundo, Ghawar. Isto “é muito significativo porque é o coração do sistema petrolífero internacional” e depois o Qatar, que tem o maior campo de gás do mundo, que é o do Northfield, que tem continuidade para o lado do Irão, crucial para os mercados de gás e exporta através do porto de Raj Laffan, também está paralisado. “Queria só lembrar que os 20 milhões de barris de petróleo que passam pelo Estreito de Ormuz significam” muito para os países asiáticos: mais de 84% desse petróleo que passa vai para os países asiáticos. Ou seja, representa para o Japão 86% das importações de petróleo, para a Coreia do Sul 84%, China 42% e União Europeia (UE) 22%. A UE, na esteira da guerra da Ucrânia, conseguiu diversificar sua dependência do gás russo e agora importa dos EUA. Depois, “a outra parte do gás europeu é importado do Catar, que é exatamente a estrutura que está paralisada”, diz. Os Estados Unidos e Israel lançaram em 28 de fevereiro um ataque militar contra o Irã, tendo matado durante a ofensiva o ‘ayatollah’ Ali Khamenei, líder supremo do país desde 1989. Leia Também: Passos alerta para “previsão miserável” para economia a partir de 2027

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