“Europa é o único continente que pode salvar a ordem

A professora da UCL, conselheira da ONU e da UE, listada na Forbes como uma das 50 mulheres mais influentes na área de tecnologia, que foi oradora este ano do congresso da APDC (Digital Business Congress), em Lisboa, aborda, na entrevista à Lusa, a importância da soberania digital da Europa e a necessidade de reduzir a sua dependência tecnológica para evitar ser chantageada.
Em primeiro lugar, “acho que precisamos de deixar bem claro que, quando falamos de soberania digital, também falamos de soberania económica e soberania política”, aponta Francesca Bria.
“Trata-se, na verdade, de competitividade, segurança, segurança da Europa e defesa da democracia. E é muito importante fazer essa conexão, porque muitas pessoas, quando falamos de digital, não entendem que as infraestruturas críticas da nossa época são digitais, controladas e podem ser usadas contra nós ou podem se tornar uma ferramenta muito poderosa para o desenvolvimento”, explica.
A Europa “apresenta uma lacuna (‘gap’) de competitividade muito grande, como menciona Mario Draghi” no seu relatório, “principalmente de inovação, o que significa que paramos de investir em tecnologia e inovação científica e de produzir tecnologias essenciais”, enfatiza a economista.
Francesca Bria aponta o que denomina de ‘digital stack’, “uma nova arquitetura de cadeia de fornecimento do poder e da riqueza modernos”.
Ora, “quem controla os pontos de estrangulamento deste ‘stack’ (conjunto) controla as regras da geopolítica atual. Temos matérias-primas e energia essenciais, temos os chips, os semicondutores estão basicamente em tudo o que usamos na nossa economia moderna”, sintetiza.
Depois há a ‘cloud’, o sistema operacional da economia digital, as redes, conectividade e os satélites e os modelos de inteligência artificial (IA) e os dados produzidos a cada instante, elencou.
“Como agora, enquanto conversamos, tudo o que fazemos nas nossas vidas gera dados, e esses dados são agregados por algumas empresas americanas que controlam 70% da nossa nuvem”, e surge a grande questão de quem está a criar valor e quem está a extrair esse valor”, aponta.
Atualmente, “como a Europa é tão dependente, 80% das tecnologias digitais são importadas do exterior”, pelo que “corremos o risco de sermos vulneráveis, de sermos chantageados na atual conjuntura geopolítica” e para tal basta pensar na guerra comercial, diz.
“Se tivermos alguma questão relacionada com o comércio” ou outros com os EUA, “eles podem chantagear-nos, somos muito dependentes dessas tecnologias críticas que, basicamente, mantêm os nossos hospitais, escolas, rede elétrica, infraestrutura a funcionar”, adverte.
A economista da inovação considera que a Europa ainda vai a tempo de perceber que esta é a questão política mais importante deste tempo.
“Se não controla a infraestrutura digital hoje, não pode controlar o seu futuro, não é livre, não é independente e não pode decidir sobre seu futuro nem proteger sua democracia. Portanto, este é o desafio fundamental da Europa”, enfatiza Francesca Bria.
A Europa “precisa de construir a sua própria tecnologia porque a tecnologia é hoje poder”, reforça a economista, acrescentando ainda o fator talento.
“Precisamos de apostar no futuro dos nossos melhores estudantes, engenheiros, talentos, dar a possibilidade para que os jovens criem startups, frequentem a universidade se forem físicos, cientistas ou engenheiros” e “de mais mulheres na ciência e na engenharia”, defende.
O tema “mais importante para a Europa é como garantir que nossos melhores talentos queiram ajudar-nos a construir essa tecnologia europeia de próxima geração”.
E por que é que a Europa ainda não fez isso? “Em primeiro lugar, temos um problema interno, não concluímos o projeto europeu e é isso que Enrico Letta também aborda no seu relatório”, remata.
Ou seja, “precisamos de concluir o mercado único digital. A Europa tem algumas partes que são mais europeias, mas também temos Estados nacionais que estão sempre, sim, em conflito uns com os outros, e precisamos de mais união para concluir este projeto”.
Também “não temos uma união de mercados de capitais” e este tipo de tecnologia “precisa de muito investimento, estrutural, de longo prazo”, mas também “acho que confiámos demais nos nossos parceiros internacionais”, refere.
Os dados “são a matéria-prima da economia digital, são o nosso ouro, é o nosso poder coletivo, os dados que produzimos, as informações, e agora temos entregado todos esses dados a empresas americanas”.
Acresce que os sistemas de IA “que vão governar tudo o que fazemos e estão a usar todos os nossos dados sem a permissão real de quem os produz”, pelo que “a Europa precisa recuperar a soberania digital e a soberania dos dados”, defende.
“Se estivermos juntos, ainda temos tempo, porque temos talento, boas universidades, temos alguma capacidade industrial”, “energia limpa, mas o custo da energia é muito alto, então, temos que fazer algo a esse respeito”, diz.
Em particular, “temos democracia” e, “neste momento, a Europa é o único continente que pode salvar a ordem democrática”, remata.
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