O Valor Invisível do Trabalhador • Diário Económico
advertisemen tNo mês em que o mundo marca o Dia Internacional do Trabalho, voltar ao pensamento de Gary Becker é revisitar a forma como valorizamos o trabalho. Em Moçambique, onde persistem problemas estruturais, essa reflexão ganha particular urgência. Quando Gary Becker publicou Capital Humano em 1964, ele não estava apenas introduzindo um conceito técnico. Estava propondo uma mudança de paradigma. Para esse economista, educação, treinamento e saúde eram mais do que direitos sociais ou gastos públicos. Constituíam investimentos com retorno mensurável. Becker, laureado com o Prêmio Nobel em 1992, ampliou o alcance da economia para esferas até então consideradas “não econômicas”, como a família, o crime e a discriminação. Sua abordagem foi baseada em uma premissa simples, mas forte: indivíduos tomam decisões racionais com base em custos e benefícios, mesmo em contextos sociais complexos. No centro dessa visão está a ideia de capital humano, o conjunto de habilidades, conhecimentos e atributos que aumentam a produtividade de um trabalhador e, consequentemente, sua renda. Do capital humano ao salário A teoria do capital humano parte de um raciocínio quase intuitivo: quanto mais qualificado um trabalhador, maior será sua produtividade e, em condições normais de mercado, maior será seu salário. Gary Becker sistematizou esta relação ao demonstrar que investimentos em educação e treinamento geram retornos ao longo da vida, tanto para o indivíduo quanto para a economia. Assim como uma empresa investe em máquinas, o indivíduo investe em si mesmo, acumulando habilidades que, em tese, se traduzem em melhores oportunidades e renda futura. Mas esse investimento está longe de ser neutro. Envolve custos diretos, como mensalidades e materiais, e custos indiretos, como tempo fora do mercado de trabalho e atraso de renda. A decisão de estudar ou trabalhar se torna, assim, uma equação de custo-benefício, onde o indivíduo projeta ganhos futuros frente a sacrifícios presentes — uma das marcas centrais da abordagem de Becker. É nesse ponto que a análise se desloca do esforço individual para o funcionamento do mercado. Se o capital humano aumenta a produtividade, então, na lógica proposta por Becker, os salários tenderiam a refletir esse acréscimo. Diferenças salariais seriam, em grande medida, explicadas por diferenças de qualificação, experiência e habilidades acumuladas ao longo do tempo. Essa perspectiva moldou profundamente a economia contemporânea, influenciando políticas públicas, sistemas educacionais e estratégias de negócios. A educação passou a ser vista não apenas como um direito, mas como um investimento estratégico para o crescimento econômico e a competitividade. Ainda assim, a transição entre qualificação e remuneração está longe de ser automática. A própria formulação levanta questões críticas: até que ponto os salários refletem, de fato, a produtividade? E o que acontece quando o mercado de trabalho é imperfeito, segmentado ou incapaz de absorver o capital humano disponível? Nesses casos, o elo entre investir em si mesmo e colher recompensas pode se tornar mais frágil, ou até mesmo ilusório. Redes de influência no acesso ao emprego, desigualdades de gênero e limitações institucionais distorcem a relação entre produtividade e remuneração Moçambique entre potencial e déficit estrutural Em Moçambique, a teoria do capital humano encontra um terreno ao mesmo tempo promissor e desigual. Nas últimas duas décadas, alguns números dão uma ideia de expansão no acesso à educação: a taxa líquida de matrícula no ensino fundamental supera, hoje, os 90%, e o número de estudantes no ensino médio mais que dobrou desde o início dos anos 2000, segundo dados do Ministério da Educação e Cultura e relatórios do Banco Mundial. Ainda assim, apenas uma fração (estimada abaixo de 20%) conclui o ensino médio, o que revela um funil educacional que limita a acumulação efetiva de capital humano. O descompasso fica mais evidente quando se cruza educação com mercado de trabalho. De acordo com estimativas da Organização Internacional do Trabalho (OIT), cerca de 80% da força de trabalho moçambicana está no setor informal. Entre os jovens urbanos, mesmo aqueles com ensino médio ou superior, o desemprego e o subemprego permanecem altos, muitas vezes acima de 20% em algumas pesquisas nacionais. Ou seja, o investimento em educação não encontra, na mesma medida, um mercado capaz de absorver e remunerar esse capital. Esse desalinhamento é recorrente em debates públicos, cúpulas econômicas e documentos estratégicos nacionais, que apontam para uma economia ainda pouco diversificada e fortemente dependente de setores de baixa intensidade tecnológica. A consequência direta é uma demanda limitada por habilidades avançadas, o que enfraquece a ligação entre qualificação e salário – exatamente o elo central da teoria de Becker. A essas fragilidades se somam fatores estruturais menos quantificáveis, mas igualmente determinantes. Redes de influência no acesso ao emprego, desigualdades de gênero persistentes (com taxas de abandono escolar mais altas entre meninas nas áreas rurais) e limitações institucionais contribuem para distorcer a relação entre produtividade e remuneração. Assim, embora o País acumule capital humano em termos formais, sua transformação em renda e mobilidade social permanece condicionada. Os limites da teoria de Becker Apesar de sua influência, a teoria do capital humano não é isenta de críticas. Alguns economistas argumentam que Gary Becker subestima o papel das estruturas sociais e institucionais na determinação dos salários. A teoria da segmentação do mercado de trabalho, por exemplo, sugere que existem “mercados paralelos” onde regras distintas se aplicam, limitando a mobilidade e distorcendo a relação entre qualificação e renda. Outros críticos apontam que a abordagem de Becker tende a responsabilizar excessivamente o indivíduo, ignorando barreiras sistêmicas como pobreza, discriminação ou falhas do Estado. No contexto africano, e particularmente em Moçambique, essas críticas ganham peso. A simples acumulação de capital humano não garante, por si só, melhores condições de vida se o tecido econômico não for capaz de absorver e valorizar esse potencial. Da teoria à realidade, que caminho seguir? Revisitar Gary Becker no mês do trabalhador é, também, um convite à reflexão sobre o futuro do trabalho em Moçambique. A teoria do capital humano continua relevante, mas exige adaptação às realidades locais. Investir em educação é necessário, mas não suficiente. É preciso alinhar a capacitação com as necessidades do mercado, promover a industrialização, fortalecer instituições e criar condições para que o mérito e a produtividade sejam efetivamente recompensados. Mais do que rejeitar Becker, o desafio está em complementá-lo, integrando sua visão com uma análise mais ampla das dinâmicas sociais e econômicas que moldam o mercado de trabalho. Em um país jovem e em transformação, o verdadeiro capital humano ainda está em construção. E seu valor dependerá tanto do investimento individual quanto da capacidade coletiva de transformar conhecimento em oportunidade. Texto Celso Chambisso • Fotografia D.Ra dvertisement



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