Ignorar pobreza infantil “tem impactos a longo prazo”

Ignorar pobreza infantil "tem impactos a longo prazo"

Segundo o relatório “Portugal Balanço Social 2025”, que tem por base dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), a taxa de risco de pobreza infantil baixou de 22,8% em 2008 para 17,8% em 2024, registando-se uma “tendência global de redução da pobreza infantil, embora persistam desafios específicos na primeira infância, que poderá exigir intervenções direcionadas”. Por outro lado, no mesmo ano, 14,9% das crianças pobres estavam em situação de privação material e social severa, um valor “quase seis vezes” maior que os 2,6% de crianças não pobres afetadas. A taxa de privação material e social afetava quase 30% das crianças pobres, um percentual “quase quatro vezes maior do que nas crianças não pobres (7,6%)”. Susana Peralta destacou algumas dimensões da privação material e social infantil, como por exemplo o fato de 22,6% das crianças pobres não poderem convidar amigos de vez em quando para brincar e comer juntos ou 22,7% que não conseguem participar de viagens ou atividades escolares que não sejam gratuitas. “Isso quer dizer que metade das crianças pobres não participa de uma atividade extracurricular ou de lazer de forma regular”, ressaltou. Ele ressaltou que isso demonstra “a quantidade de coisas que há para fazer junto às famílias pobres com crianças”. “É um mundo de políticas públicas e sabemos o que essas privações nas crianças fazem. Elas fazem adultos que vão crescer com maior prevalência de doenças crônicas ou com mais dificuldade de ter sucesso no mercado de trabalho”, alertou. Segundo Susana Peralta, as consequências da pobreza infantil são “uma das coisas mais bem documentadas da ciência econômica”. A pobreza infantil “tem impactos de longo prazo nas habilidades cognitivas” e está relacionada a comportamentos de risco ou prevalência de doenças crônicas. “Devemos estar tendo muito mais atenção com o problema da pobreza infantil”, defendeu, acrescentando que “só se resolve com transferências sociais, dando dinheiro para as famílias”. A economista e pesquisadora explicou que “a renda dos pais por si só não é suficiente, do ponto de vista das políticas públicas, para resolver o problema da pobreza nas crianças”. “É perfeitamente imaginável e possível que uma família que não é pobre, quando nasce uma criança, se torne pobre, porque aí tem mais uma pessoa para alimentar e a renda não aumentou, porque criança não traz renda, só traz despesa”, exemplificou. Defendeu, portanto, que nunca será possível resolver esse problema, “mesmo no país mais rico do mundo”, sem dar dinheiro para famílias que têm crianças. Em relação aos dados globais do relatório, Susana Peralta destacou que “o país tem feito progressos notáveis ​​nos últimos 20 anos”, apesar de “15,4% de pobres ainda ser muita gente vivendo na pobreza” e de continuarem a persistir “nichos de pobreza que são preocupantes”. Ele destacou que o poder de compra das famílias aumentou em média 25% nos últimos 10 anos, com “uma distribuição bastante inclusiva”, mas defendeu “que a maior parte disso deve ser explicada pelo bom desempenho da economia”. Apesar da evolução positiva, persistem desigualdades, nomeadamente os “25% mais ricos (que) vivem com quase cinco vezes mais renda que os 10% mais pobres”. Segundo a pesquisadora, “um dos grandes problemas da pobreza é sua transmissão”, justificando, portanto, uma “análise cuidadosa da privação infantil”, já que “uma em cada seis crianças com menos de cinco anos vive na pobreza”. Susana Peralta disse ainda que 1.500 mil pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza são muitas, com persistentes carências habitacionais, de acesso a cuidados de saúde ou sem bem-estar emocional, o que demonstra que ainda “há imensas falhas” e “muito espaço para políticas públicas intervirem para melhorar a sua qualidade de vida”. Leia Também: Pobreza baixa para 15,4%, mas desigualdades persistem em Portugal

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