Accenture acusada de “tortura psicológica”, mas diz

Em julho, o Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal (CESP) emitiu um comunicado no qual acusava a multinacional de esconder “um modelo de exploração brutal” que deixa os trabalhadores “sem proteção, sem apoio psicológico digno e com salários de miséria”, ao mesmo tempo que a Accenture se promove como a “melhor empresa para trabalhar”. À agência Lusa, o CESP esclarece que são “relatadas várias denúncias por parte dos trabalhadores sobre a exposição repetida a conteúdos muito violentos e perturbadores sem adequado apoio psicológico”, bem como denúncias por repressão laboral, com práticas de má gestão e pressão por produtividade, com “uma intimidação continua por parte das chefias”. O sindicato acusa, por exemplo, a empresa e as suas chefias de condicionar idas à casa de banho, “alegando influência no tempo de produção”, acusações corroboradas por dois funcionários contactados pela agência Lusa. A Accenture Portugal não respondeu às perguntas da agência Lusa, dizendo por escrito que “o bem-estar dos colaboradores é uma prioridade máxima” e que disponibiliza apoio e recursos de bem-estar todos os dias. “Oferecemos remunerações competitivas, oportunidades de progressão na carreira e respeitamos os diretos dos colaboradores em Portugal à filiação e à atividade sindical”, acrescentou a consultora. Joana (nome fictício) trabalha há quatro anos na moderação de conteúdos da Accenture e explica que os funcionários têm uma pausa de 30 minutos por dia, tempo no qual devem “fazer tudo o que precisarem sem ser estar em frente ao computador”. Manuel (nome fictício) é moderador de conteúdos na Accenture desde 2022 e diz-se confrontado regularmente com “conteúdo traumatizante, como violações, execuções, prostituição, exploração de menores ou acidentes graves”. “São imagens que ficam, surgem em sonhos, surgem aleatoriamente no dia-a-dia”, diz Manuel. O CESP alerta que “os ritmos de trabalho e metas de produtividade são muito exigentes, com impacto na saúde mental” e as medidas de apoio aos trabalhadores insuficientes. Perante a exposição regular a conteúdos violentos, Manuel refere que “as pessoas ficam com mazelas psicológicas” e embora a empresa tenha mecanismos de promoção de bem-estar, não é o equivalente ao apoio psicológico. “Muitas vezes, o tempo que se passa em sessões dedicadas ao bem-estar é sentido pela maior parte dos trabalhadores como uma perda de tempo”, afirma Manuel. O sindicato salienta que os responsáveis pela moderação de conteúdos ‘online’ apenas têm 30 minutos mensais de “coaching” sem formação clínica acreditada. Joana confessa já ter precisado de uma baixa médica, porque “ficou muito deprimida por estar presa neste trabalho e não ver possibilidade de progressão. É como gritar no vazio”, remata. A empresa recusa, em Portugal, reconhecer o CESP como representante dos trabalhadores e proíbe a entrada dos sindicalistas em vários edifícios. Em 2024, a Accenture registou lucros de 64,9 mil milhões de dólares em todo o mundo (cerca de 59,7 mil milhões de euros). Leia Também: Espinho. Empresa e ex-administrador absolvidos por morte de trabalhador



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