Após insolvência, Sicasal retoma produção com parte dos

“Foi com um misto de ansiedade, nervosismo, mas também com uma alegria enorme que nos reencontramos no nosso espaço de trabalho”, disse à Lusa Norberto Esteves, encarregado geral da fábrica e membro da comissão de trabalhadores da Sicasal. Um adiantamento de um cliente, por conta de uma encomenda de produto que começou a ser processado nas instalações de Vila Franca do Rosário, concelho de Mafra, permitiu retomar a produção na Sicasal após uma paragem de cerca de quatro meses. Mais trabalhadores devem ser chamados nas próximas semanas, à medida que novas linhas de produção forem reativadas, mas o diretor-geral da Sicasal, Jorge Pena, não adiantou um número ou uma data concreta. Depois de vários meses com salários em atraso – em falta ainda estão as remunerações de novembro, de dezembro e o subsídio de Natal -, a Sicasal pagou as retribuições de janeiro aos 250 trabalhadores, por conta do adiantamento desse cliente cuja identidade o diretor-geral não quis revelar. Desde que em 11 de fevereiro a fábrica voltou a funcionar, a Sicasal está produzindo e embalando salsichas e chouriços para exportação, destinados ao mercado angolano, por conta do cliente Asli. A produção deve ser ampliada dentro de dias para o presunto em lata, também para exportação. Segundo Jorge Pena, a reativação da fábrica se tornou possível com “a entrada de um capital de giro”, por parte desse cliente, e também pela “dinâmica da equipe, que está muito motivada”. Segundo o diretor-geral, que chegou à Sicasal no dia anterior à declaração de insolvência, os trabalhadores “são pessoas muito focadas e querem que a empresa continue”. A Sicasal é um dos maiores empregadores do município de Mafra. A idade média de seus cerca de 250 trabalhadores, alguns deles formando casais, está próxima dos 50 anos e a antiguidade média é de cerca de 20 anos. O novo plano fabril aponta para uma produção de 500 toneladas mensais, o que corresponde a apenas um quarto da capacidade total, mas o diretor-geral explica que “a empresa ficou parada por algum tempo e, como é óbvio, as máquinas precisam de algum tempo de adaptação”. O futuro da Sicasal deve agora envolver a venda do capital para novos acionistas. O diretor-geral, que já havia sido consultor da empresa entre 2020 e 2021, garantiu que “há vários investidores” interessados. “O maior ativo são as pessoas e é a marca”, que é conhecida “nacional e internacionalmente”, como acrescentou. Para a notoriedade da marca, também contribuiu o patrocínio entre 1986 e 1995 de uma equipe profissional de ciclismo, a Sicasal-Acral, vencedora da classificação geral da Volta a Portugal por três vezes – em 1987, 1989 e 1991. Na primeira assembleia de credores, marcada para 4 de março, Jorge Pena espera que sejam apresentados “planos de recuperação” da empresa, baseados na compra do capital e no perdão de uma parte substancial da dívida à banca e a fornecedores, que ultrapassa os 37 milhões de euros. Nessa reunião de credores, já pode ser decidida “uma nova administração para a empresa”, disse ainda. “O potencial da empresa vai muito além do que estamos fazendo, e esperamos que no dia 04 de março apareçam interessados que possam reativar a capacidade da empresa nas diversas áreas de frescos e de transformados, que possam salvaguardar os empregos de todos os trabalhadores e que levem a empresa para a dimensão que ela conquistou”, afirmou Norberto Esteves, o representante dos trabalhadores. A Sicasal foi fundada em 1968 por Álvaro dos Santos da Silva, voltada para a produção e comercialização da carne suína fresca e produtos industrializados de frios. Em novembro de 2011, um incêndio destruiu parte da área de produção e a unidade fabril de Vila Franca do Rosário foi quase totalmente reconstruída, no momento em que empregava cerca de 700 funcionários. A empresa, que chegou a faturar perto de 100 milhões de euros (ME), perdeu participação de mercado nos últimos anos, fez investimentos em Angola que não geraram o retorno esperado, e seu volume de vendas diminuiu significativamente, para 42,3 ME em 2024. A situação financeira levou a um acúmulo de perdas, tendo registrado um resultado líquido negativo de 3 ME, em 2022, 8,8 ME, em 2023, e 11 ME, em 2024. A dívida com os 250 credores constituídos totalizava 37 ME, dos quais 22,4 milhões com bancos – Millennium bcp (11,6 ME), Caixa Geral de Depósitos (4 ME), Novo Banco (3,6 ME) Abanca (2,5 ME) – e 9,4 ME com fornecedores. A Promauto, empresa de promoção e relações públicas, se destaca na lista de credores, com uma quantia de 4,1 ME. Em outubro, a Sicasal parou a produção e, no mesmo mês, a direção entrou com um Processo Especial de Revitalização (PER), junto ao Fórum da Comarca de São Paulo Oeste, para tentar recuperar a empresa propondo aos credores um perdão de 70% do valor da dívida e o parcelamento dos 30% restantes. Além dos administradores da Sicasal, assinava o requerimento o proprietário da Promauto, Nuno Pardal Ribeiro, também ex-dirigente do Chega que atualmente está a ser julgado pelos crimes de recurso à prostituição de menores. Segundo o Jornal de Negócios, o PER foi recusado pela Justiça porque a empresa não conseguiu entregar documentos de forma repetitiva. Em dezembro, o banco Millennium bcp, o maior credor, pediu a insolvência da Sicasal, que foi decretada em 6 de janeiro pelo Tribunal de Lisboa Oeste e Jorge Calvete foi nomeado administrador da insolvência. A assembleia de credores foi marcada para 4 de março, e planos de recuperação da empresa podem ser apresentados pelo atual acionista ou por compradores interessados. Em 2 de fevereiro, Jorge Calvete admitiu à Lusa que o cliente que fez o adiantamento poderia estar interessado em adquirir a Sicasal, acrescentando que “não terá uma posição de vantagem”. O plano é “ir chamando os trabalhadores por fases à medida que a produção avança”, disse ainda, observando que o salário de fevereiro está garantido para todos os funcionários. Ele também admitiu que pode haver ajustes no quadro de funcionários, após decidir se a empresa vai funcionar como antes, ou se vai eliminar áreas como abatedouro e desmanche. Enquanto isso, o Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura e das Indústrias da Alimentação, Bebidas e Tabacos de Portugal (SINTAB) demonstrou preocupação com a declaração de insolvência, “colocando centenas de empregos em risco”. Condenou ainda “as opções estratégicas erradas e de falhas graves de gestão”, defendendo que “não é aceitável que décadas de trabalho e dedicação dos trabalhadores sejam colocadas em causa por decisões que não levaram em conta a sustentabilidade econômica e social da empresa”. Leia Também: TotalEnergies promete apoiar projetos de eletricidade na África



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