Associações empresariais com leituras diferentes sobre saída

A companhia aérea de baixo custo Ryanair deixa de voar no sábado para os Açores, após 11 anos do início da operação. A decisão, anunciada em janeiro, foi justificada com taxas aeroportuárias e com a tributação ambiental europeia. Em comunicado, a Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada (CCIPD) defendeu hoje que a saída da Ryanair representa “a perda de um motor econômico” dos Açores e a perda de “competitividade”, com um “risco real” de a região voltar “a um modelo de dependência de companhias de bandeira, com preços mais altos, menor oferta e forte sazonalidade”. Os empresários de São Miguel e Santa Maria consideraram que a saída da companhia pode até “significar uma estagnação do PIB (Produto Interno Bruto) regional, anulando grande parte do crescimento econômico esperado”. “A Ryanair transportava mais de 100 mil turistas por ano para os Açores (mesmo quando já não tinha base em Ponta Delgada), sendo responsável por quase 10% das dormidas turísticas e por um impacto econômico total que pode ultrapassar os 160 milhões de euros anuais”, disse a associação empresarial, que já havia apresentado um estudo sobre o impacto da saída da companhia. A CCIPD acusou o Governo Regional dos Açores de ter falhado na acessibilidade, na promoção, na antecipação, na estratégia e na gestão de um setor “que representa cerca de 20% do PIB regional e que é hoje o maior motor da economia” açoriana. “Enquanto outras regiões, como a Madeira, planejam, investem e negociam de forma profissional, garantindo crescimento sustentado e competitividade internacional – a mesma Ryanair que sai dos Açores entra na Madeira, onde já existe a Easy Jet -, os Açores ficaram para trás, presos a decisões erradas, a falta de visão e a uma governança desarticulada”, ressaltou. Os empresários também criticaram “a ausência de um plano crível de substituição da companhia, a incapacidade de diversificar companhias aéreas e a falta de liderança política”, que “deixaram os Açores vulneráveis, dependentes e expostos”. Em comunicado, a associação empresarial agradeceu à companhia aérea irlandesa “pelo papel determinante que teve na transformação econômica dos Açores” e disse esperar “voltar a contar com a Ryanair em um futuro não muito distante”. Deixou ainda um alerta ao Governo Regional de que está em causa “o futuro da economia” dos Açores, reiterando que a região precisa de “estratégia, profissionalismo e liderança”. Questionado pela Lusa, o presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Angra do Heroísmo (CCIAH), Marcos Couto, defendeu, no entanto, que é preciso abandonar a ideia de que o turismo nos Açores está em queda devido à saída da companhia aérea de baixo custo. “A Ryanair abandonou a região, reduzindo em 75% sua operação em 2023, e os números do turismo sempre cresceram de forma consistente ao longo desse tempo. Os números do turismo diminuem a partir de setembro de 2025 e a Ryanair ainda estava aqui”, apontou. Marcos Couto alegou que o problema é “estrutural” e decorre, sobretudo, da “falta de promoção do destino”, dando como exemplo o fato de a associação Visit Azores ter executado “apenas 40% de seu orçamento”. “O turismo é um mercado extremamente competitivo e em que quem desaparece, esquece. E é isso que está acontecendo claramente e os resultados se revelam automaticamente”, reforçou. O presidente da associação empresarial das ilhas Terceira, São Jorge e Graciosa alertou, no entanto, que será difícil recuperar os índices de crescimento que a região registrou nos últimos dois anos. “A conjuntura internacional não é nada favorável, a conjuntura nacional também não é favorável e todos esses fatores combinados, obrigatoriamente, vão criar dificuldades para o turismo regional nos próximos tempos”, frisou. Marcos Couto disse acreditar que o vazio deixado pela Ryanair será ocupado, numa primeira fase, pela TAP e pela Azores Airlines, mas considerou “urgente continuar um trabalho de atratividade das companhias aéreas para o destino Açores”. O presidente da CCIAH admitiu “alguns constrangimentos” no verão, não apenas devido à saída da Ryanair, mas devido à redução de 32.703 assentos na operação da Azores Airlines. “O que está acontecendo é a falta de assentos disponíveis, fruto do abandono da Ryanair e da diminuição da oferta de assentos da SATA, o que obviamente faz com que a lei da oferta e da procura faça com que o preço aumente e que tenhamos aqui uma ideia absolutamente errada de que era a Ryanair que fazia os preços caírem”, apontou. Ainda assim, segundo Marcos Couto, os empresários do setor contam com “ocupação sensivelmente semelhante” nos meses fortes do verão, apesar de perceberem uma diminuição na duração da alta temporada. Leia Também: Saída da Ryanair com impacto na Páscoa no alojamento local dos Açores



Publicar comentário