Encerramento da maior indústria moçambicana mergulha

A iminente paralisação da Mozal, também a maior indústria moçambicana, com mais 1.000 trabalhadores diretos e 4.000 indiretos, lança incerteza sobre as empresas vizinhas dentro daquele parque, a 20 quilômetros de Maputo, como é o caso da Dendustri. Fundada em 2008, prevê encerrar a atividade caso a “catástrofe” se confirme, após 12 milhões de dólares (10 milhões de euros) investidos, preparando-se para deixar quase meia centena de pessoas no desemprego. “A Mozal representa 95% do nosso rendimento, do nosso negócio. Basicamente, a Dendustri está aqui para servir a Mozal. Criamos uma outra unidade que nós pensávamos que podia nos diversificar o risco, que é a tecnologia de precisão TLC, mas tivemos um pouquinho de azar nessa parte, porque o mercado, neste momento, está muito baixo e há pouca procura desse tipo de trabalho”, disse à Lusa Mohamad Aboubakar, representante da Dendustri em Moçambique. Com a Mozal ao fundo, onde os caminhões carregados de alumínio continuam saindo, pelo menos hoje em dia, a Dendustri continua a produzir hastes de ânodo para a vizinha fundição de alumínio. Como tantas outras naquele parque, não se vê a fazer mais nada, além de fechar as portas caso a Mozal suspenda a ativididade em 15 de março, conforme anunciado por aquela indústria, devido ao diferendo em torno das tarifas de energia elétrica. De acordo com dados de agosto passado da MozParks, que administra aquele parque, o qual cresceu para prestar serviços à fundição, a dependência das indústrias locais dos serviços prestados à Mozal tem caído. Naquela época, cerca de 60% destas já não prestavam serviços à Mozal. No total, mais de 60 empresas funcionam ali, com 12 mil postos de trabalho, sendo oito mil já fora do fornecimento da Mozal. Naquele parque, como a Lusa constatou, a preocupação é generalizada e várias empresas fazem contas aos fechamentos, por terem a Mozal como única cliente, de todo tipo de serviço, mas sobretudo indústria pesada. Os empresários preferem o silêncio, esperando para ver a realização da entrada em regime de suspensão e conservação na Mozal, apesar de a própria fundição estar avançando com demissões coletivas. Na Dendustri, mais do que uma simples paralisação, o fechamento da Mozal se vê como um “cenário catastrófico”, para a economia do país, mas também para os 48 funcionários que finalizam produtos para a vizinha fundição. “O impacto em relação ao fechamento da Mozal é muito devastador e catastrófico, porque vai fazer com que nós também tenhamos de fechar a empresa ou, pelo menos, mantermos o mesmo sistema que a Mozal, que é o regime de conservação”, explica, ressaltando que esse impacto não será sentido apenas no setor industrial. Com as máquinas ainda soldando nos armazéns, enquanto a empresa se empenha em fornecer aqueles que podem ser os últimos serviços para a maior indústria moçambicana, Mohamad reconhece que a Dendustri ainda tenta alternativas para minimizar os impactos desse fechamento, que motiva conversas em cada esquina, em cada rua do parque. A Dendustri se apoia na expectativa da existência de um mercado nacional que ainda precisa de muito ‘input’ em relação às indústrias, reconhecendo, no entanto, que tem sido um pouco difícil para essas alternativas se tornarem reais, devido à fraca demanda e às dificuldades econômicas de Moçambique. Para os trabalhadores da Dendustri, com várias outras vizinhas, o futuro é incerto, marcado apenas pela esperança de uma mudança na decisão da australiana South32, que administra a Mozal. “O que nós estamos fazendo é uma decisão baseada naquilo que Mozal também nos trouxe, que é fazermos a demissão coletiva com base na lei e com tudo a que os trabalhadores têm direito. É exatamente o que nós já estamos fazendo, já entramos em contato com os sindicatos, já entramos em contato com o Ministério do Trabalho e infelizmente está fora daquilo que é o nosso controle e nós teremos de fazer isso, (pois) manter os trabalhadores significa destruir a empresa. Então, nesse momento, temos de fazer isso, enquanto ainda temos condições para poder compensar os trabalhadores”, disse. Além do risco iminente de demissões em massa, Aboubakar, que trouxe aquela indústria e outras empresas para o Parque Industrial de Beluluane, aponta que a saída da Mozal também reduzirá a carga tributária nacional e o volume de impostos que as empresas pagam ao Estado, reduzindo da mesma forma a receita das próprias empresas. “A longo prazo, isso pode trazer consequências muito graves. A Mozal foi um dos primeiros megaprojetos e o impacto é visível. Portanto, temos aqui uma zona nova que foi criada, que é o Beleluane, temos o corredor de Maputo, que foi criado também por causa da Mozal”, sublinhou. A Mozal já avançou em fevereiro com o processo de demissão coletiva, como parte da suspensão da atividade em março, conforme comunicado feito ao comitê sindical da empresa de fundição. A South32 garantiu também em fevereiro que vai suspender, em 15 de março, a atividade da fundição de alumínio, passando a mesma para o regime de manutenção e conservação “devido à impossibilidade de garantir um fornecimento de energia elétrica suficiente e acessível”, apesar das anunciadas tentativas do Governo para ultrapassar o diferendo sobre tarifas de energia. A Mozal compra quase metade da energia produzida em Moçambique, essencialmente pela Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) e em 18 de agosto, o Presidente moçambicano, Daniel Chapo, afirmou que as tarifas de energia propostas pela Mozal levariam ao colapso da hidroelétrica. Por sua vez, a South32 admitiu a disponibilidade para pagar mais pelo fornecimento de energia face ao contrato que termina em 15 de março, mas que as tarifas propostas por Moçambique estão “muito acima” dos valores praticados no fornecimento a outras fundições, que requerem elevados consumos de energia, noutros países, sendo por isso irreversível a suspensão da atividade da Mozal. Leia Também: Camponeses moçambicanos deixam campos após avistarem terroristas



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