“Europa muito dificilmente vai conseguir mitigar”

Questionado sobre o atual estado de desenvolvimento da inteligência artificial (IA), em que a maioria dos modelos são dos EUA e China, Carlos Carvalho afirma que o velho continente “está claramente correndo atrás do prejuízo”. Mas “eu espero que não continue a ter uma tendência para só legislar e regulamentar e continuar a perder tempo naquilo que é desenvolvimento”, salienta o CEO da tecnológica portuense. “A Europa deveria ter apostado, poderia e deveria regular, mas ao mesmo tempo tinha que estar desenvolvendo tecnologia europeia e não fez. Aliás, criou foi condições para que a tecnologia que até nasce na Europa vá para outros continentes”, aponta Carlos Carvalho. Agora, “o que me preocupa” com a IA “é que ela é, acima de tudo, um acelerador”, enfatiza. Ou seja, “acelera tudo aquilo que as organizações possam fazer e estes modelos restritos” que têm surgido como o Mythos, por exemplo, da Anthropic para a área da cibersegurança, entre outros, “o que fazem é que vão permitir a quem até agora não tinha grandes capacidades ofensivas passar a dispor de capacidades ofensivas como só algumas organizações ou Estados tinham”, adverte. “Muito provavelmente vamos começar a ver grupos de cibermercenários com ataques que vão passar a ser muito mais orquestrados, repetitivos, profissionalizados, otimizados, perfeitos, campanhas de ‘phishing’ muito mais detalhadas e perfeitas e vai ser complicado”, admite o gestor, que também é presidente da ANJE. “Mas a IA também serve para nos defendermos” e, nesse sentido, “temos que também conseguir usá-la”, ressalta. Contudo, a sua preocupação assenta no tempo que a IA veio acelerar: “O tempo para rapidamente termos capacidade de atacar e causar dano vai ser mais curto e o tempo para defender também pode ser mais curto se tivermos capacidade de usar essas ferramentas”. Agora, o problema na Europa está em “quem é que controla essas ferramentas? Onde é que elas estão? Sobre que jurisdição? Infelizmente, a Europa aí está completamente dependente”, lamenta. “A dependência tecnológica é, hoje em dia, uma dependência estratégica crítica que a Europa muito dificilmente vai conseguir mitigar”, considera, referindo que não vai conseguir atenuar isso com “meia dúzia de ideias ou de legislação”. “Ou se capacita a tecnologia europeia ou então vamos ter um problema sempre em crescendo”, alerta Carlos Carvalho. O CEO da Adyta considera que dentro da soberania europeia há a soberania dos próprios países: “Sabemos que hoje somos todos amigos, mas qualquer dia não somos, basta ver o que tem acontecido com os EUA”. Contudo, “há uma coisa que não vamos conseguir fazer: grande parte da tecnologia e da tecnologia aplicada à defesa é desenvolvida por empresas que são gigantes”, de defesa, “que também produzem ‘software’ ou soluções tecnológicas e (…) Portugal não vai, de hoje para amanhã, ter uma empresa do tamanho da Thales, da Indra, da Leonardo, do que for”, aponta. “Vamos ficar dependentes de tecnologia dessas empresas” que são de outros Estados “e que muitas vezes operam sob autorização desses Estados? Ou vamos ter uma estratégia de parcerias industriais mas que permitam ganhar alguma soberania nacional na utilização dessas soluções”, questiona. Adyta acredita que este último é o caminho. “Estrategicamente, na Adyta, o que estamos fazendo é buscar soluções que venham desse tipo de organizações” e “ter uma forma de que elas possam ser usadas em Portugal com uma parte de tecnologia nacional”, aponta o CEO. Na prática, “ter acesso à solução por base e na Adyta termos a capacidade de desenvolver tecnologia adicional que permita, de alguma forma, tornar aquela tecnologia mais portuguesa”. No fundo, “tornar aquela solução com tecnologia portuguesa, (…) mitigando os problemas de soberania”, defende. “Estamos conversando com alguns potenciais parceiros (…) porque entendemos” que é como “a Adyta deve se posicionar para buscar garantir ao nosso país também cibersoberania”, enfatiza. Sobre a meta a ser concretizada até o final do ano, Carlos Carvalho diz esperar “ter condições para que a Adyta possa subir alguns degraus em termos de posicionamento no mercado, mas em um mercado especializado”. “Não queremos ser uma empresa que faz tudo, queremos ser uma empresa quase como uma boutique especializada em soluções de comunicação segura ‘dual use’, defesa e civil, e serviços de cibersegurança muito especializados e também desenvolvimento de soluções de ciberdefesa”, resume. “Estamos trabalhando no desenvolvimento e na participação em projetos de inovação com outros parceiros nacionais, seja para ajudarmos na segurança cibernética e na classificação de cadeias de fornecedores”, adianta. “Tivemos recentemente uma mini agenda PRR de que fazemos parte aprovada” e “estamos a candidatar-nos a novos projetos financiados diretamente por Bruxelas, Fundo Europeu de Defesa, e, portanto, queremos ser uma empresa que é capaz de desenvolver produto e prestar serviços, mas sem nunca largar o braço da inovação”, que é o vai diferenciar os serviços e o produto da tecnológica, remata. 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