Falta de oferta e casas caras vão desacelerar subida de

“Não sendo expectável uma inversão a curto prazo, é razoável antecipar uma desaceleração do ritmo de subida dos preços, ainda que 2026 continue a registar crescimentos, embora mais moderados”, disse à Lusa a presidente da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP), Patrícia Barão. Para a executiva, “trata-se de um ajuste natural em um mercado que não é elástico e que dificilmente poderá sustentar, de forma prolongada, variações da ordem de dois dígitos”, segundo afirmou. Bruno Coelho, administrador de imóveis do Doutor Finanças, concorda que o mercado pode estar a caminho de um arrefecimento porque as famílias começam a adiar decisões de compra. “O mercado imobiliário é bastante previsível e funciona em ciclos. Neste momento, está em um pico de pouca oferta, e o que acontece depois desses ciclos é um desaquecimento do mercado”, explicou o gerente. A tendência, se confirmada, significa que os preços se tornaram “inviáveis para a classe média, que já não consegue se afastar mais do centro das cidades. As decisões de compra começam a ser mais ponderadas e adiadas, há mais imóveis disponíveis no mercado e os preços reduzem-se ligeiramente”, disse ainda o responsável da empresa intermediária de crédito. Com base em preços anunciados (e não efetivos) de venda de moradias, a análise trimestral do observatório imobiliário do Doutor Finanças apontou uma leve queda de 0,4% nos valores de venda por metro quadrado entre janeiro e março deste ano. Contudo, os últimos dados estatísticos sobre habitação divulgados pelo INE mostraram uma subida de 16,8% no preço mediano dos alojamentos familiares transacionados em Portugal em 2025 face ao ano anterior, situando-se nos 2.076 euros por metro quadrado, um novo máximo histórico desde o início da série, em 2019. No quarto trimestre, o crescimento foi ainda mais acelerado, atingindo um aumento de 17,5% face a igual período do ano anterior, com o preço mediano a subir para 2.198 euros por metro quadrado. Também o valor mediano de avaliação bancária na habitação alcançou um novo máximo histórico de 2.151 euros por metro quadrado em março, mais 16,5% do que no mesmo mês de 2025. Ainda assim, o aumento homólogo de 16,5% foi inferior aos 17,2% registados em fevereiro, segundo o INE. Segundo a presidente da APEMIP, a escassez de oferta de moradias “continua pressionando o mercado”, já que apenas cerca de 25 mil novas moradias são disponibilizadas por ano quando “a demanda real exigiria um volume próximo a 70 mil”. Também o presidente executivo (CEO) da imobiliária ERA Portugal, Rui Torgal, sustentou que o crescimento dos preços é o resultado de “um desequilíbrio brutal entre a oferta e procura, porque nos últimos 10 a 12 anos não se construiu praticamente nada. E a escassez de mão-de-obra não dá resposta às solicitações do mercado”. Entre habitação pública, habitação nova e reconstrução ou reabilitação de imóveis usados, Portugal terá um déficit de habitação “na ordem de 800 mil a um milhão de casas”, como disse o responsável. Ressaltando que os preços só caem com maior equilíbrio entre oferta e demanda, Rui Torgal admitiu, no entanto, que haverá “um momento a partir do qual o valor será tão alto que as pessoas não poderão mais comprar casas”. O responsável da ERA Portugal mostra-se crítico do atraso no “choque fiscal” do Governo, que prevê, entre outras medidas, a redução da taxa de IVA de 6% para 23%, acrescentando que teria preferido “um anúncio mais tardio das medidas e uma entrada em vigor mais rápida”, de forma a evitar “a incerteza tremenda que existe no mercado imobiliário”. Bruno Coelho também reconhece “um problema estrutural da oferta”, que tem de ser superado com “mais construção”, maior “acesso a terrenos para construção” e maior rapidez nos licenciamentos. “Algumas das medidas anunciadas pelo governo podem surtir efeito, mas o imobiliário é um mercado lento. As coisas demoram a surtir efeito. Leva tempo, mais do que tudo. Estamos falando de anos”, concluiu. Patrícia Barão acrescentou que o futuro do mercado habitacional dependerá “da capacidade de reforçar a oferta e de implementar soluções estruturais, como o ‘build to rent’ (construir para alugar) ou estratégias de adensamento urbano, sem as quais a pressão sobre os preços tenderá a se manter, ainda que de forma mais moderada”. Leia Também: Total de crédito imobiliário subiu 10,6% no fim de março



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