Linhas elétricas subterrâneas sem apoio europeu “podem

O especialista em energia começou por explicar à Lusa que a eletricidade que chega às casas das famílias vem de redes de média e alta tensão. Normalmente, o foco está na média tensão, que é enterrada em áreas urbanas, e as linhas aéreas em áreas rurais, o que para o responsável “faz sentido”. “A (solução) enterrada é significativamente mais cara. É feita principalmente aérea porque é três a cinco vezes mais barata e muito mais rápida de fazer”, disse o ex-presidente da EDP Inovação. Ainda assim, ele ressaltou que as linhas enterradas “têm muito menos falhas”, mas quando acontece “é mais caro e leva mais tempo para reparar”. Sobre o financiamento, ele disse que é essencial usar fundos europeus, porque sem eles o custo acabaria na conta dos consumidores. “Todo o investimento que for feito vai aparecer na fatura se não for financiado pelos fundos europeus”, alertou. O tema do enterramento das linhas elétricas voltou ao debate público na sequência de recentes declarações da ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, sobre o reforço das linhas enterradas para aumentar a resiliência da rede após as intempéries que devastaram o país e deixaram milhares de casas e empresas sem eletricidade. Questionado sobre o efeito que tempestades semelhantes poderiam causar, ele considerou que “uma porcentagem maior de linhas enterradas teria amenizado o impacto”, mas implicaria gastar “muito mais dinheiro” sem saber se seria necessário. Apontando o exemplo francês, ele lembrou que, após a tempestade de 1999, o país decidiu enterrar todas as novas linhas de média tensão e hoje “só ainda têm 50% enterradas”. Para Portugal, propôs uma estratégia gradual: tornar subterrâneo tudo o que é novo, manter o que já existe e adicionar cabos subterrâneos em áreas críticas. Assim, em situações de falha, nem tudo deixaria de funcionar, defendendo investimentos “cirúrgicos” para aumentar a resiliência. António Vidigal lembrou que Portugal tem cerca de 20% das linhas subterrâneas e rejeitou uma substituição rápida: “Não faz sentido nenhum passar de repente até 50%. França não fez isso (…) e não há dinheiro para isso”. O executivo lembrou ainda que a E-Redes – operadora da rede de distribuição de energia elétrica em Portugal continental – só investe com aprovação regulatória e que os planos atuais não devem ser suspensos. Ele propôs avançar com o Plano de Desenvolvimento e Investimento da Rede de Distribuição de Energia Elétrica (PDIRD-E) já aprovado e criar um plano extraordinário. Apesar de o componente de redes representar “menos de 15%” do custo final da conta de luz, ele alertou que “é sempre dinheiro que eles vão ter que pagar e no final do ano conta”. Nesse sentido, defendeu decisões ponderadas: “Nenhum sistema de engenharia pode ter segurança absoluta (…) temos que definir para onde vamos direcionar o investimento”. O especialista também ressaltou que a rede nacional tem cumprido parâmetros europeus de disponibilidade, mas admitiu que fenômenos extremos podem se tornar mais frequentes. “Se for o novo normal, temos que começar a nos preparar (…) tudo que é novo deve ser feito da maneira mais resiliente”. Entre medidas complementares, ele apontou a necessidade de reforço de geradores próprios em infraestruturas críticas, como hospitais, e a ampliação de soluções descentralizadas. “Cada vez fará mais sentido para as pessoas terem (painéis) fotovoltaicos em casa complementados com baterias” para armazenamento, disse. António Vidigal considerou ainda que o próximo concurso para a concessão de baixa tensão, cujo modelo o Governo deve aprovar em breve, deveria integrar requisitos de segurança e tempos máximos de recuperação, defendendo que Portugal acompanhe soluções regulatórias próximas das francesas. O ex-ministro das Infraestruturas e ex-sceretário de Estado da Energia João Galamba considerou que enterrar linhas não é a única solução para garantir resistência na rede elétrica e disse que essa necessidade já estava prevista: “Portugal não acordou hoje.” Ana Teresa Banha | 23:59 – 05/02/2026



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