NOS captura talentos com neurodiversidade em parceria com

Arranjar trabalho para pessoas com neurodiversidade, que inclui o espectro autista, “é muito difícil”, diz Joana Baptista, chefe da Specialisterne. Para se ter uma ideia, “em adultos autistas, a taxa de desemprego gira em torno de 80%”, diz. A NOS é uma das empresas que tem um programa de neurodiversidade que integra a estratégia de diversidade e de inclusão. “Queremos construir efetivamente uma organização mais inclusiva, mais inovadora, orientada para o futuro”, explica à Lusa Rita Montenegro, responsável de ‘people experience & diversidade e inclusão’ da NOS, a propósito do Open Day da terceira edição da neurodiversidade da NOS, onde o objetivo é receber os candidatos e famílias e dar a conhecer o projeto. Até o momento, a NOS já contratou seis pessoas, entre elas uma mulher: “Queremos que o projeto continue crescendo” de forma sustentável, diz Rita Montenegro. “Os perfis que temos ido buscar têm aportado muito valor àquilo que é a entrega dos nossos objetivos e das equipas e até com melhorias muito significativas” sobre métodos de trabalho, partilha a responsável, que assevera que o programa “está a correr muito bem”, com um “‘feedback’ muito positivo das equipas”. Na verdade, “o difícil nestas coisas é começar, mas quando nós temos os nossos parceiros connosco, no caso, a Specialisterne, ajuda-nos a recrutar melhor, a enquadrar melhores pessoas nas equipas, a melhorar também muito aquilo que são os nossos hábitos e processos de trabalho”, diz. “Profissionais diferenciadores, inovadores e com outras formas de pensar, também tornam a organização melhor”, finaliza Rita Montenegro. Jorge Coveiro, 44 anos, é um dos colaboradores neurodivergentes da NOS, que compartilhou, em conversa com a Lusa, sua experiência. “Estou aqui há um ano e meio”, relata, lembrando que trabalha na área ‘Quality Management Services’ da NOS. Trabalha como engenheiro de automação e entrou pelo programa de neurodiversidade: “Candidatei-me numa segunda instância, porque na primeira instância não consegui entrar. Candidatei-me uma segunda vez e, felizmente, consegui entrar para NOS”, reforça Jorge Coveiro. Apesar de os neurodivergentes enfrentarem dificuldades para entrar no mercado de trabalho – muitas vezes nem chegam à entrevista -, o engenheiro alerta que as “pessoas sempre têm uma chance” e “não devem desistir”. “É preciso acreditar e há muitos meios para entrar e esse programa serve para isso mesmo, não deixe de acreditar porque é possível”, insiste Jorge Coveiro, que entrou em engenharia informática no Instituto Politécnico Beja, mas como também gosta “muito de matemática”, já trilhou “outros caminhos também em termos de cursos”. Ele admite que, no início, “não estava com nenhuma expectativa do que iria fazer”, mas foi “descobrindo ao longo do caminho” e tem sido “super interessante”. O programa de neurodiversidade conta com a Specialisterne como parceira, empresa dinamarquesa criada em 2004 e fundada pelo pai de uma pessoa autista, na época como era ligado à área tecnológica, foi a origem da organização, relata Joana Baptista. “Neste momento, não são mais apenas pessoas autistas que contratamos e que colocamos no mercado de trabalho, são também pessoas neurodivergentes com TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), com dislexia, com Tourette (síndrome caracterizada pela presença de múltiplos tiques motores e pelo menos um tique vocal)”, acrescenta, lembrando que isso é feito de forma muito metódica, muito sistemática, em nível mundial. Está presente em 26 países, tem 11 escritórios locais e todos os outros trabalhando de forma remota. “Em Portugal estamos desde 2021, numa parceria criada inicialmente com a Critical Software, onde foi, de facto, estruturado o programa de neurodiversidade” e “já temos, neste momento, integradas 40 pessoas no mercado de trabalho, dentro das várias empresas (…), mas também noutros projetos de inclusão”, sublinha Joana Baptista. A responsável ressalta que a Specialisterne já tem parceiros “muito fortes, como é o caso da NOS, da Critical TechWorks, da Caixa Geral de Depósitos, da Critical Software, e de outras empresas que estão com outros projetos”, em paralelo, mas não dentro do programa de neurodiversidade. No autismo, o espectro vai do nível 1 ao 3, então algumas pessoas precisam mais de suporte do que outras, mas “estamos falando de pessoas capazes”. Contudo, “há um estigma muito grande e há logo uma associação, muitas vezes, de, por exemplo, um défice cognitivo e o que é facto é que não existe sequer evidência científica disso”, adverte Joana Baptista. “No mundo somos 600 funcionários” e “400 deles são neurodivergentes”, e alguns têm cargos de liderança. Portanto, “o autismo ou a neurodivergência não é um obstáculo para a pessoa ser bem-sucedida em seu ambiente de trabalho”. Agora, “é preciso adaptações necessárias, oportunidades para a pessoa se desenvolver e se sentir segura em seu ambiente e poder demonstrar todo o seu potencial”, finaliza. Em Portugal, a organização tem colocado mais homens no mercado de trabalho que mulheres. “Porque também nos chegam mais candidaturas de homens. A verdade é que também sabemos que existem muitas mulheres que ainda não têm um diagnóstico formalizado”, diz. No Open Day, Jorge Coveiro refere que nas outras empresas em que este não teve o mesmo tipo de integração que existe na NOS. Além de um ‘buddy’ (companheiro), os profissionais neurodivergentes também contam com um mentor. “O processo que nós fazemos é praticamente igual àquilo que fazemos com qualquer colaborador” e o que “nós procuramos fazer é ter aqui uma primeira parte de formação antes de cada uma das missões e atividades”, explica Rui Coelho, mentor de uma pessoa neurodivergente na NOS, responsável pelo desenvolvimento de ‘software’ na direção de engenharia de redes. O que “a gente pretende é que a pessoa vá fazendo o trabalho que a gente precisa que seja feito e vá crescendo com isso”, diz. Para Rui Coelho, essa medida de inclusão deveria ser estendida a outras empresas, porque apesar de alguma preocupação inicial, como ele mesmo teve, depois a realidade demonstra que é apenas “trabalhar o dia a dia”. Leia Também: Pessoas com deficiência denunciam barreiras no acesso ao crédito



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