Como Torná-lo Funcional Para os Pequenos Agricultores •
A agricultura é a espinha dorsal da economia moçambicana, empregando mais de 70% da população activa, sobretudo nas zonas rurais, onde escasseiam alternativas de rendimento. Em 2023, o sector representava mais de um terço do PIB. Este peso económico e social torna a agricultura central para qualquer estratégia de desenvolvimento inclusivo. Contudo, o seu potencial é sistematicamente comprometido por vários constrangimentos, incluindo falta de tecnologias agrícolas, acesso limitado ao financiamento e, cada vez mais, os impactos imprevisíveis das alterações climáticas. Neste contexto, o seguro agrícola — sobretudo o de riscos climáticos — deixa de ser um luxo e passa a ser uma necessidade. Mas apesar do seu valor estratégico, continua a ser um instrumento pouco acessível, mal compreendido e raramente utilizado pelos que mais dele precisariam: os pequenos agricultores. O desafio dos modelos convencionais Mais de 98% dos agricultores em Moçambique são pequenos produtores, frequentemente excluídos das soluções convencionais de seguro baseadas em indemnizações após avaliações de campo. Estes modelos, para além de morosos e dispendiosos, não são tecnicamente adaptados às dinâmicas locais. Na Hollard Seguros, percebemos cedo que não bastava adaptar os produtos existentes — era necessário repensar por completo o conceito de seguro agrícola. A nossa abordagem partiu de uma ideia simples: o seguro só pode funcionar se estiver plenamente alinhado com as necessidades e realidades dos pequenos produtores. Inovar para incluir: seguro de índices climáticos Um dos nossos principais marcos foi a introdução do seguro agrícola de índices climáticos, que utiliza indicadores objectivos — como níveis de precipitação ou humidade do solo, medidos por satélite — para acionar compensações automáticas. Este modelo reduz custos operacionais, elimina a subjectividade das avaliações e acelera os pagamentos, permitindo aos agricultores recuperar rapidamente após choques climáticos como secas ou cheias. O futuro da agricultura moçambicana depende, em larga medida, da sua capacidade de gerir riscos e construir resiliência. E para isso, o seguro de índices climáticos pode ser mais do que uma rede de segurança Contudo, rapidamente percebemos que inovação técnica não é sinónimo de adopção em massa. Em 2012, com o apoio do Banco Mundial e do Governo de Moçambique, lançámos na Hollard o nosso primeiro produto de seguro de índices climáticos. O piloto foi financeiramente eficaz: as compensações pagas foram quase o triplo do valor dos prémios cobrados. Ainda assim, o mesmo seguro não foi renovado no ano seguinte. Nem mesmo os beneficiários directos mostraram interesse em continuar o seguro no ano seguinte. Um momento de viragem: oportunidade na sementeira Foi numa situação corriqueira — a compra de sementes para a minha própria machamba — que a solução começou a desenhar-se. O vendedor garantiu uma taxa de germinação de 85%, desde que certas condições fossem cumpridas. Esta “garantia condicional” soava, em muitos aspectos, como um contrato de seguro. E surgiu a pergunta: por que não integrar o seguro directamente no produto agrícola que o agricultor já está predisposto a comprar? Assim nasceu a nossa estratégia de integração do seguro agrícola na cadeia de insumos, especialmente nas sementes híbridas. Esta abordagem demonstrou ser eficaz tanto do ponto de vista da adopção como da sustentabilidade comercial. Para além do seguro: construir ecossistemas de resiliência É fundamental reconhecer que nem todos os riscos são seguráveis. Como parte dos efeitos das alterações climáticas, em quase todas as campanhas existe quase sempre o risco ligeiro a moderado de secas. O seguro é solução mais custo-efectivo para riscos severos e extremos. A melhor forma de gerir os riscos ligeiros e moderados é o melhoramento da resiliência do agricultor com a aplicação de técnicas melhoradas de agricultura de conservação e o uso da tecnologia como as sementes resilientes. Por isso, o seguro não deve ser visto como solução isolada, mas como parte de um ecossistema agrícola robusto, capaz de gerar valor e mitigar riscos de forma integrada. Fazer os mercados funcionarem Uma das grandes lições que tirámos foi a importância de fortalecer, e não substituir, os mercados formais de fornecimento de insumos. Programas de doação de insumos, embora bem-intencionados, podem ter efeitos perversos sobre o desenvolvimento de mercados formais — desincentivando a produção local, distorcendo preços e afastando investidores privados. A nossa estratégia foi inversa: trabalhámos com os fornecedores privados de sementes como parceiros estratégicos. Mesmo após o fim do financiamento externo, estes actores mantiveram-se no mercado, sinalizando que é possível construir resiliência com dignidade e sustentabilidade, e não com dependência. A pergunta certa: Quem deve tomar as decisões? Muitos fóruns internacionais continuam a perguntar: “Como convencer os pequenos agricultores a comprar seguros?” Mas talvez devêssemos reformular a pergunta: quem tem poder e responsabilidade para fazer o sistema funcionar? A resposta não está apenas no agricultor. Está em todo o ecossistema — fornecedores de sementes, agregadores, reguladores, instituições financeiras — que deve ser mobilizado e capacitado para criar um mercado funcional e inclusivo. Um exemplo promissor é o nosso modelo de transferência de risco embutido nas sementes, com potencial de escala para atingir milhões de produtores em Moçambique. Seguro agrícola em Moçambique visa proteger quem alimenta o País Uma nova visão para o seguro agrícola No fim de contas, o seguro agrícola inclusivo não é apenas uma inovação financeira. É uma estratégia de desenvolvimento. É um mecanismo para proteger meios de vida, aumentar a produtividade e garantir segurança alimentar. Não deve ser visto como um benefício de elite urbana, mas como um direito económico dos produtores rurais. Para isso, é essencial mudar a forma como olhamos para os agricultores: de receptores passivos para co-criadores da sua própria resiliência. Com políticas certas, tecnologia adequada e vontade colectiva, o seguro agrícola pode ser o catalisador de uma nova era na agricultura africana. O futuro semeia-se hoje A experiência da Hollard Seguros prova que o fracasso inicial do seguro agrícola não foi do produto, mas da forma como este era apresentado e distribuído. Ao integrá-lo na cadeia de valor — sobretudo das sementes — conseguimos aumentar a relevância, a confiança e a adesão. O futuro da agricultura moçambicana depende, em larga medida, da sua capacidade de gerir riscos e construir resiliência. E para isso, o seguro de índices climáticos pode ser mais do que uma rede de segurança: pode ser o fertilizante invisível que transforma o risco em oportunidade. Porque quando se semeia confiança, colhe-se segurança! E nenhum agricultor deveria enfrentar a próxima campanha sem isso.



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