Trabalhadores que ficam nas empresas são “principal motor”

Os salários reais cresceram, nos últimos anos, sobretudo graças aos trabalhadores que ficaram nas mesmas empresas. A conclusão é de um estudo do Banco de Portugal (BdP), que revela que a estabilidade no emprego é o “principal motor” dos salários em Portugal. “A decomposição da variação do salário real no período entre 2011 e 2024 revela diferenças significativas entre os grupos analisados (Gráfico C5.1). Os trabalhadores que permanecem na empresa em dois meses consecutivos — que representam a maioria dos trabalhadores — são o principal motor do crescimento salarial, contribuindo em média 1,6 pontos percentuais (pp) por ano”, pode ler-se no Boletim Económico de dezembro de 2025, divulgado pelo supervisor da banca. Mais: “O seu contributo tem um perfil pro-cíclico, sendo elevado em períodos de maior crescimento económico e negativo em períodos recessivos (nomeadamente na crise das dívidas soberanas)”. Relativamente às novas contratações, o BdP diz que estas “têm, em média, salários mais baixos do que os trabalhadores que permaneceram na empresa, exercendo um efeito negativo sobre o crescimento dos salários agregados (–2,5 pp em média)”. “Importa clarificar que, apesar dos salários das novas contratações serem em média inferiores aos prevalecentes nas empresas, as transições entre empresas estão associadas a ganhos salariais significativos ao nível do trabalhador (Gráfico C5.2). A distribuição das variações salariais é, no entanto, heterogénea — apenas cerca de 40 por cento das transições estão associadas a aumentos salariais no momento da transição”, revela ainda o supervisor da banca. Saídas de trabalhadores têm impacto nos salários? Outra conclusão do estudo do BdP é que as “saídas de trabalhadores têm um impacto positivo no crescimento salarial (2,3 pp em média), refletindo o facto de os trabalhadores que saem das empresas auferirem, em média, salários inferiores aos dos trabalhadores que permanecem nas empresas”. “O contributo específico dos trabalhadores que transitam posteriormente para outras empresas é, em média, de 0,3 pp”, pode ler-se. Revisão laboral pode deixar 13 mil pessoas “presas” a contratos a prazo De recordar que as alterações propostas pelo Governo aos prazos dos contratos podem levar a que cerca de 13 mil trabalhadores por ano deixem de ver o seu contrato convertido em sem termo, conclui uma análise do ISCTE. O Governo decidiu avançar com uma reforma “profunda” da legislação laboral, cuja proposta tem sido contestada pelas centrais sindicais e que levou à marcação de uma greve geral para quinta-feira, a primeira paralisação conjunta desde 2013. Lusa | 09:24 – 09/12/2025 estimativa consta do “Panorama 2026”, a nova publicação anual do Instituto para as Políticas Públicas e Sociais do ISCTE (IPPS-ISCTE), coordenada por Pedro Adão e Silva, sociólogo e antigo ministro da Cultura do terceiro governo de António Costa, que antecipa o que se irá passar no novo ano em cinco áreas: desafios geoestratégicos, situação política nacional, cenários macroeconómicos e evolução do mercado de trabalho e dos rendimentos dos portugueses. “Se as regras dos contratos a termo forem novamente flexibilizadas, podemos estimar que cerca de 13 mil trabalhadores por ano deixariam de ver o seu contrato convertido em sem termo”, conclui a análise do ISCTE elaborada por Paulo Marques, à luz do anteprojeto de revisão da legislação laboral apresentado pelo Governo de Luís Montenegro. No anteprojeto, o Governo propõe um aumento da duração máxima dos contratos a prazo, de dois para três anos, bem como que os primeiros contratos a termo possam passar a durar um ano, quando atualmente o limite é de seis meses. Leia Também: Salário mínimo de 1.600€? CGTP fala em “ato desesperado” de Montenegro



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