Explicador. Como a guerra pode chegar ao bolso dos

Explicador. Como a guerra pode chegar ao bolso dos

Essa rota é fundamental para a circulação de petróleo bruto e gás natural liquefeito, e qualquer perturbação pode ter repercussões globais. Portugal não importa grande parte do petróleo diretamente dos países do Golfo Pérsico, mas o preço do petróleo bruto é definido em mercados internacionais. Mudanças na oferta ou percepções de risco podem se refletir nos preços dos combustíveis, gás e eletricidade no país. Aqui estão algumas perguntas e respostas sobre o que está em jogo e como isso pode chegar aos bolsos dos consumidores portugueses: O que é o Estreito de Ormuz e por que é importante? O Estreito de Ormuz é uma passagem marítima entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial transportado por via marítima e uma parte significativa do gás natural liquefeito. Países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Iraque ou Qatar usam essa rota para exportar energia para mercados internacionais. Qualquer perturbação no tráfego marítimo nesta área pode afetar o fornecimento global de energia. Por que o conflito com o Irã pode fazer os preços da energia subirem? Os preços do petróleo e do gás são definidos em mercados globais. Se existe risco de interrupção no fornecimento, os mercados tendem a antecipar escassez e os preços sobem. Mesmo que a produção mundial não diminua imediatamente, a simples ameaça de bloqueio da rota pode levar a uma alta de preços nos mercados internacionais, como aconteceu após Estados Unidos e Israel lançarem em 28 de fevereiro um ataque militar contra o Irã. Portugal depende do petróleo do Oriente Médio? Portugal importa petróleo de vários países e não depende diretamente dos produtores do Oriente Médio para o abastecimento. Segundo dados de 2024 da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), uma parte significativa do petróleo bruto que chega às refinarias portuguesas tem origem em países do continente americano e da África. No petróleo, o Brasil assegurou cerca de 44% das importações portuguesas, seguido por Argélia (18%), Estados Unidos (11%) e Azerbaijão (9%). Já no caso do gás natural, Portugal tem sido abastecido principalmente pela Nigéria (51%) e pelos Estados Unidos (40%), e o país deixou de comprar gás do Qatar há mais de três anos. Ainda assim, o petróleo é negociado em um mercado global. Por isso, qualquer perturbação em uma rota estratégica como o Estreito de Ormuz — por onde passa parte significativa do petróleo transportado no mundo — pode causar altas no preço internacional do petróleo bruto e acabar se refletindo no custo dos combustíveis em Portugal. Quando os preços dos combustíveis podem subir? Apesar de não ser diretamente dependente de produtores do Oriente Médio, os preços dos combustíveis em Portugal são fixados internacionalmente, de modo que a evolução das cotações globais do petróleo bruto se reflete no preço de venda ao público. As variações no preço do petróleo podem levar alguns dias para se refletir nos postos de abastecimento. Isso ocorre porque as distribuidoras compram combustível antecipadamente e os preços também incluem custos de refino, transporte, impostos e margens comerciais. O mecanismo de fixação de preços em Portugal segue, em regra, a média das cotações da semana anterior, de modo que qualquer manutenção da tendência de alta deve se refletir nos preços de varejo nesse período. Como havia explicado à Lusa o secretário-geral da associação que representa as Empresas Portuguesas de Combustíveis e Lubrificantes (EPCOL), António Comprido, o impacto será “significativo” já a partir da próxima semana. Fonte do mercado confirmou que estão previstos aumentos em torno de 25 centavos no diesel comum e sete centavos na gasolina já a partir de segunda-feira, 09 de março. O primeiro-ministro, Luís Montenegro, admitiu esta semana que o Governo poderá avançar com um desconto extraordinário e temporário do ISP para compensar uma eventual subida dos combustíveis caso se verifique um aumento superior a 10 cêntimos face ao valor da semana. Segundo Montenegro, essa medida visa devolver às famílias e empresas o adicional de arrecadação do ICMS, mitigando o impacto direto na carteira. O gás natural também pode ser afetado? Sim. O Estreito de Ormuz também é uma rota importante para o transporte de gás natural liquefeito (GNL), especialmente do Qatar, um dos maiores exportadores do mundo. Se o tráfego de navios for perturbado, pode haver menos oferta no mercado global, o que tende a pressionar os preços. Qualquer redução no fornecimento global pressiona os preços do gás, que afetam não apenas os contratos de gás industrial, mas também a produção de eletricidade em usinas a gás. Isso poderia afetar o preço da eletricidade? Sim, principalmente de forma indireta. Em muitos países europeus, incluindo Portugal, o gás natural continua a ser usado para produzir eletricidade. O preço da eletricidade é formado no mercado atacadista ibérico (MIBEL), de acordo com a oferta e a demanda horárias. O preço final geralmente corresponde ao custo da última usina necessária para atender a demanda, normalmente a gás natural. Quando o gás fica mais caro, o custo de produção de eletricidade também pode aumentar, o que pode impactar as tarifas no atacado. A indústria, especialmente os setores com maior consumo de gás, geralmente sente os efeitos primeiro, devido à ligação direta aos preços do mercado atacadista. Para consumidores domésticos, o impacto depende do tipo de contrato: tarifas reguladas ou atreladas ao mercado podem refletir altas em semanas a meses, enquanto contratos fixos podem não sofrer alteração imediata, pois o preço só muda na renovação ou se a empresa aplicar uma cláusula de revisão extraordinária com aviso prévio. Pode haver uma nova crise energética como em 2022? A crise energética de 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia, levou a fortes aumentos nos preços do gás e da eletricidade na Europa. O impacto atual dependerá principalmente da duração e da intensidade da tensão no Oriente Médio e de quaisquer interrupções no transporte de energia. Embora o aumento dos preços do petróleo possa pressionar os custos de combustível e eletricidade, Portugal tem algumas vantagens estruturais: cerca de 70% da eletricidade consumida vem de fontes renováveis, tornando o setor menos dependente do petróleo. Se a situação se prolongar, consumidores e indústria poderão sentir pressões adicionais nos preços de energia, mas ainda será cedo para saber se o cenário se assemelhará ao da crise energética de 2022. Leia Também: Combustíveis: Governo anuncia desconto de 3,55 centavos no ISP do diesel

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