Empréstimos ordenados por Salgado “delapidaram”

“Apesar desses empréstimos não pagos e que de fato dilapidam o patrimônio da Tranquilidade, (…) a Tranquilidade não ficou em perigo. Não houve nada que tornasse a Tranquilidade incapaz de responder aos seus compromissos”, afirmou Miguel Moreno, ouvido como testemunha no julgamento, em Lisboa, do processo principal do colapso do Banco Espírito Santo (BES) e do GES, no verão de 2014. Em causa estão várias operações financeiras, incluindo a compra de títulos de dívida de sociedades do GES, realizadas pela Tranquilidade no primeiro semestre de 2014, e que, segundo o ex-administrador financeiro da seguradora, foram ordenadas por Ricardo Salgado, então presidente do BES, instituição que na época detinha a seguradora. Dos empréstimos de um valor global de mais de 150 milhões de euros, apenas um foi reembolsado. “Foram instruções que foram dadas pelo acionista único, na pessoa do dr. Ricardo Salgado, e que a Comissão Executiva não gostou, debateu por meses, mas às quais não se opôs. E portanto as operações foram feitas”, disse hoje Miguel Moreno, acrescentando que quem confrontasse o banqueiro seria demitido. Pelo menos algumas das ordens, precisou, foram precedidas de um telefonema da então diretora do Departamento Financeiro, de Mercados e de Estudos do BES, Isabel Almeida, que apelidou de “porta-voz do dr. Ricardo Salgado para esses assuntos de empréstimos”. Questionado pelo Ministério Público sobre o porquê do desconforto manifestado pela Comissão Executiva da Tranquilidade, o ex-administrador financeiro explicou que os empréstimos eram de “montante alto” e não se encaixavam na “política de investimento” da companhia. Ainda assim, ele ressaltou que, na época, os diretores consideraram que o financiamento, justificado por Ricardo Salgado com um aumento de capital do BES que aconteceria em junho, era de “baixo risco”. “Nunca passou pela nossa cabeça que (o BES/GES) estivesse à beira do colapso. Todo mundo via que o aumento de capital estava sendo montado e veio a ocorrer (em junho de 2014): 1.050 milhões de euros. (O empréstimo) não nos deixava satisfeitos, mas tinha alguma sustentabilidade”, sustentou. Até porque, ressaltou, nos 10 anos anteriores nada parecido havia sido pedido à Tranquilidade pelo BES e Ricardo Salgado – em quem confiavam e que nunca pensaram que prejudicaria um ativo seu – sempre garantiu que depois do aumento de capital tudo estaria resolvido. “Acho que genuinamente o Dr. Ricardo Salgado estava convencido de que os empréstimos seriam reembolsados após o aumento de capital”, defendeu. Em 2015, o Novo Banco, sucessor do BES após a falência, vendeu a Tranquilidade para o fundo norte-americano Apollo, que, por sua vez, a vendeu em 2019 para a italiana Generali. O processo principal da queda do BES/GES conta atualmente com 18 acusados, incluindo Ricardo Salgado, de 80 anos e doente de Alzheimer, e Isabel Almeida. O Ministério Público estima que os atos supostamente praticados entre 2009 e 2014 pelos ex-quadros do BES e de outras entidades do GES tenham causado prejuízos de 11,8 bilhões de euros ao banco e ao grupo. Em questão estão crimes de associação criminosa, corrupção no setor privado e estelionato qualificado, entre outros. O julgamento decorre desde 15 de outubro de 2024 no Tribunal Central Criminal de Lisboa. IB // FPA Lusa/Fim



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