Maior ponte-cais do mundo promete mudar a vida em ilha de

Na praia, cercado por comerciantes e turistas à espera do próximo barco para levá-lo ao ‘ferry-boat’ que obrigatoriamente fica ao largo, Hermínio Nhampossa, 36 anos, conta à Lusa que a nova ponte-cais, com quase um quilômetro de extensão, erguida ali a poucos metros, traz alegria à comunidade de KaNyaka – Inhaca – e aos visitantes, aliviando as dificuldades de transporte na região. “Vai ser um alívio total, porque já teremos facilidade de chegar aos navios, descarga e carregamento, então isso vai facilitar muito a nossa vida. É uma luz que veio para iluminar mesmo”, assinala, enquanto se prepara para meter os pés na água para apanhar o pequeno barco até ao ‘ferry-boat’ e daí seguir para Maputo. Com tarifas que variam de 300 meticais (quatro euros) a 1.000 meticais (13,32 euros), todos os dias dezenas de pessoas fazem a travessia marítima entre Inhaca, um dos principais pontos turísticos da província, localizada na entrada da baía de Maputo, sul de Moçambique, e a cidade capital, apesar de essa ligação ser difícil e deficitária, devido à reduzida oferta de transporte marítimo e condições de atracação. Até agora era até normal filas de passageiros esperando para embarcar, dentro da água, de malas na cabeça e pés molhados, em um barquinho para levar ao navio que liga a terra. Um cenário que muda drasticamente para aquela ilha, com a abertura, desde sexta-feira, da nova ponte-cais. Hermínio, gerente em uma estância turística na ilha dos Portugueses, a 1.850 metros a noroeste de Inhaca, é um dos passageiros frequentes nas embarcações com destino ao centro de Maputo, isso porque, apesar de trabalhar na ilha, tem filhos e esposa do outro lado da baía. “Às vezes faço semanalmente (a travessia), às vezes faço mensalmente devido ao meu trabalho. Tenho um pico, tenho uma época em que trabalho mais aqui, deste lado, no verão, neste caso, fico mais tempo deste lado. Mas no inverno tenho estado lá na cidade de Maputo, tenho atravessado sempre para a cidade de Maputo, semanalmente”, explica. Com a nova ponte-cais, já prevê um aumento de visitantes e, consequentemente, de investimentos naquela ilha, localizada a poucos minutos da capital, integrada administrativamente à cidade de Maputo. “Haverá muita melhoria, (…) eu trabalho com a operação italiana MSC Cruzeiros e eles já pensaram em trazer clientes deste lado, em massa, saindo do navio direto para cá, na ilha da Inhaca. Mas com as dificuldades da tabela de maré, eles acabaram não conseguindo. Com essa ponte eu acredito que as coisas já vão mudar, vão mudar mesmo para o positivo”, diz. Narciso Chipole, diretor de Engenharia da Sociedade de Desenvolvimento do Porto de Maputo (MPDC), concessionária do porto da capital e principal financiadora da empreitada, lançada em novembro de 2024, num investimento avaliado em cerca de 13,5 milhões de dólares (11,6 milhões de euros), prevê que o impacto socioeconômico da estrutura, com 989 metros de comprimento, vai ser grande na região, já que antes “turistas e supostos investidores não vinham à ilha porque não tinham uma dignidade, não havia condições para receber seus serviços”. “A ponte tem ‘standards’ (padrões) de segurança e estrutura para receber pessoas e por isso o impacto econômico será grande”, diz, acrescentando que a infraestrutura, capaz de receber três embarcações simultaneamente, trouxe dignidade no embarque e desembarque de pessoas e bens. Atento às garantias está Manuel Changula, 35, igualmente natural de Inhaca. Ele vê na ponte-cais um símbolo de desenvolvimento e, com sua inauguração, espera “coisas boas”, especialmente no turismo, importante fonte de renda para muitos moradores da ilha. “No barco a vela eu estava pagando 300 meticais (para a travessia), mas agora como tem essa ponte, com aquele barco (ferryboat), vale a pena”, aponta, lembrando as dificuldades da travessia até agora, com a necessidade de pegar duas embarcações – um grande e outro pequeno para desembarcar na praia da ilha -, o que sempre afastou os turistas. “O movimento estava muito baixo”, conta, explicando que “muitos turistas tinham medo da água” e de usar os barcos a vela para chegar à costa. Com a nova infraestrutura, o acesso fica mais simples e seguro, pois “agora é só o barco atracar e as pessoas subirem pela ponte”. Entre os 140 moçambicanos contratados para a construção da ponte-cais está Fernando Saíde, 24, justamente morador da Ilha de Inhaca. Envolvido na obra desde outubro, o jovem afirma que o projeto marcou o início de sua vida adulta, permitindo que ele garanta renda regular e adquira blocos para a construção da própria casa. Com certa experiência prévia na construção civil, o jovem conta que foi por meio desse projeto que conseguiu o primeiro emprego estável, passando a contribuir para o sustento da família, em uma oportunidade que descreve como decisiva para seu futuro. “Foi um pouco diferente do que eu ganhava antes”, pontua. Para o jovem, a nova infraestrutura deve atrair mais investimentos e aumentar o número de turistas, criando oportunidades de renda para a população local. “É uma forma mesmo de ganhar mais pão”, diz, sintetizando a expectativa de melhoria das condições de vida na região. Em 01 de novembro de 2024, aquando do lançamento da obra, o então Presidente da República, Filipe Nyusi, afirmou em Inhaca que a construção da ponte-cais estava avaliada em 13,5 milhões de dólares (11,6 milhões de euros) e deveria incrementar o turismo, trocas comerciais e pesquisas, sublinhando que seria a “maior ponte cais do mundo”, pela sua extensão. Além da estatal Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique e do Fundo de Transportes e Comunicações, grande parte do financiamento para essa empreitada é garantida pela MPDC, como parte da prorrogação do contrato de concessão do porto da capital até 2058. Trata-se de um pacote de 15 milhões de dólares (12,8 milhões de euros), fora do investimento de quase dois bilhões de euros para a expansão do porto no âmbito da concessão, destinado a seis projetos sociais a serem suportados pela MPDC, incluindo essa ponte-cais. Leia Também: Presidentes de Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Timor-Leste em posse de Seguro



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