Índice de Desenvolvimento Humano: Moçambique Continuará a Melhorar?
Moçambique ganhou pontos e subiu duas posições no novo relatório de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas. Continua no grupo dos países menos desenvolvidos do mundo, mas, pela primeira vez desde 1990, está acima dos dez últimos. Um acaso ou sinal de esperança?
Escrita Por: Administração |
Publicado: 2 years ago |
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Categoria: Economia
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) lançou, em Março, o relatório de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) 2023-24, e Moçambique conquistou uma ténue alegria: subiu da 185.ª posição no IDH de 2022, com 0,446 pontos, para a 183.ª com 0,461 pontos. O IDH é uma medida estatística composta usada para classificar países pelo seu nível de “desenvolvimento humano”. É um conceito que vai além da análise do crescimento económico, para incluir aspectos sociais que influenciam a qualidade de vida: longevidade (saúde), educação e padrão de vida – geralmente medido pelo Produto Interno Bruto (PIB) per capita.
Pela primeira vez desde 1990, Moçambique surge acima dos dez últimos do ranking, mas a classificação obtida (0,461) está ainda longe de tirar o País do grupo dos menos desenvolvidos do mundo – cujo limiar está fixado nos 0,542 pontos neste relatório.
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A publicação anual do Índice de Desenvolvimento Humano chama a atenção para questões de desenvolvimento e desigualdade, promovendo discussões e advocacia em torno da necessidade de desenvolvimento humano sustentável e inclusivo. Mas é precisamente no capítulo das desigualdades que o País continua a enfrentar dificuldades. Uma parte do relatório explora essa abordagem. O Índice de Desenvolvimento Humano Ajustado à Desigualdade (IDHAD) é uma versão do IDH que leva em consideração a desigualdade dentro de um país nas três dimensões básicas do IDH: saúde, educação e padrão de vida. E, nesta versão, Moçambique recua quatro lugares e perde 41,4% da pontuação.
Qual o panorama na lusofonia?
Entre os países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), apenas a Guiné Equatorial e Moçambique registam progressos no IDH. Do outro lado do Atlântico, o gigante Brasil aparece este ano na 89.ª posição do IDH, no grupo dos países com Alto Nível de Desenvolvimento, com 0,760 pontos, duas posições abaixo da registada no relatório anterior. O desenvolvimento humano foi particularmente rápido e expressivo naquele país durante a primeira década de existência do IDH, entre 1990 e 2000, mas os progressos abrandaram significativamente desde então.
Pela primeira vez desde 1990, Moçambique surge acima dos dez últimos do ranking, mas a classificação obtida (0,461) ainda está longe de tirar o País do grupo dos menos desenvolvidos do mundo
Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste caem também nas posições relativas que tinham no IDH anterior, assim como a pontuação no índice é menor. Ambos os arquipélagos lusófonos no Atlântico caem três lugares – Cabo Verde da posição 128.ª para a 131.ª (com 0,661 pontos) e São Tomé e Príncipe da 138.ª posição para a 141.ª (0,613 pontos). A queda de Timor-Leste no ranking é bastante mais expressiva, 15 posições, da 140.ª para a 155.ª posição este ano, com 0,566 pontos, contra 0,607 pontos anteriormente.
Já Portugal regista progressos no IDH (de 0,866 pontos para os 0,874 pontos), mas cai quatro posições no ranking, da 38.ª para a 42.ª posição no grupo de topo dos países de Muito Alto Desenvolvimento Humano – sendo o ranking global liderado este ano pela Suíça, com 0,967 pontos. Angola tem um registo semelhante ao português, no sentido em que, não obstante a pontuação do IDH do país ser superior à do índice anterior – 0,591 pontos contra 0,586 -, a sua posição relativa passa da 148.ª para a 150.ª.
África do Sul lidera na África Subsaariana
A África do Sul é o país com o mais elevado IDH na África Subsaariana, com 0,717 pontos, ocupando a 110.ª posição este ano, abaixo da registada antes. A Somália, com 0,380 pontos, é o último país dos 193 países do ‘ranking’.
Conflitos, agressões e violência são realidades extremas que emergem quando as complexas redes de interdependência global se deterioram, especialmente contra o pano de fundo de desequilíbrios de poder prolongados
A África Subsaariana é, cronicamente, a região com o mais baixo IDH em todo o mundo. Este ano, regista 0,549 pontos, um valor praticamente estagnado em relação aos dois índices anteriores. O IDH mundial ultrapassa finalmente este ano o registo pré-pandémico, alcançando os 0,739 pontos (contra 0,737 pontos em 2019) e depois de ter caído, pela primeira vez na sua história, devido aos efeitos da covid em 2020 e 2021.
Um mundo em busca de sustentabilidade
Afinal, qual o retrato mundial? O Relatório sobre o Desenvolvimento Humano 2023/24 realça um ponto em particular: a necessidade de melhorar a gestão da interdependência global. Apesar dos avanços tecnológicos e da riqueza acumulada, o mundo enfrenta crises persistentes, como as relacionadas com as alterações climáticas, pandemias e violações dos direitos humanos. A equipa do IDH entende que são exacerbadas por uma gestão inadequada da globalização. No entanto, deixa uma esperança: os problemas não são inevitáveis. A receita para escolhas mais acertadas inclui cooperação no caminho para a paz, na prosperidade partilhada e na sustentabilidade.
O relatório salienta que a má gestão da interdependência global prejudica comunidades de várias formas, incluindo vidas perdidas, oportunidades desperdiçadas e desespero – que podem levar à incerteza. Conflitos, agressões e violência são realidades extremas que emergem quando as complexas redes de interdependência global se deterioram, especialmente contra o pano de fundo de desequilíbrios de poder prolongados. Isto é evidenciado pelo aumento das fatalidades em guerras e pelo número recorde de pessoas deslocadas à força.
A pandemia da covid-19 é citada como um exemplo de como os riscos sistémicos resultantes da interdependência global são mal geridos, conduzindo a crises que se repercutem e amplificam de maneiras inesperadas. A falta de confiança nos governos e entre as pessoas exacerbou a situação, mostrando a importância da solidariedade e da resolução criativa para enfrentar ameaças globais. O relatório realça a necessidade de abordar directamente a polarização política, corrigindo equívocos sobre as crenças dos outros e criando espaços de decisão para superar divisões, como assembleias de cidadãos. A solidariedade e a resolução criativa são apresentadas como meios para progredir no desenvolvimento humano, num mundo interdependente, ajudando a gerir de forma cooperativa e pacífica o impasse global. Uma utopia? O tempo o dirá.
Texto: E&M • Fotografia: Istock Photo & D.R.