As Quatro Grandes Heranças de Hicks Para a Ciência Económica
Muitos institutos e universidades de renome apontam o britânico John Hicks como um dos nomes mais influentes do século XX, graças aos contributos para a economia do trabalho, teoria “da utilidade e dos preços” e macroeconomia. As suas obras ajudaram a estruturar o pensamento económico contemporâneo.
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Categoria: Economia
Num breve perfil sobre John Hicks, divulgado pelo Cato Institute, uma entidade norte-americana dedicada à pesquisa de políticas públicas e à promoção de debates, o economista canadiano Pierre Lemieux – cujo trabalho abrange teorias económicas e escolhas públicas – destacou que “para compreender a economia e o raciocínio económico, não existem atalhos que evitem o pensamento neoclássico, e uma excelente demonstração disso encontra-se na obra de John Hicks, um dos mais eminentes economistas do século XX”.
a d v e r t i s e m e n t
Nesse artigo, intitulado “John Hicks e a beleza da lógica económica”, Lemieux descreve Hicks como um virtuoso da teoria económica pura, ou seja, na arte de desenvolver teoremas lógicos a partir de premissas claramente estabelecidas. “Ele articulou as suas teorias maioritariamente em inglês simples, ainda que não se coibisse de recorrer à matemática quando necessário, por exemplo, para expandir os seus resultados além de dois bens e duas pessoas. O seu livro ‘Value and Capital’, publicado há 85 anos, é uma mostra exemplar da teorização económica na sua essência. A obra subsequente, ‘A Theory of Economic History’, lançada há 55 anos, aplica o raciocínio económico ao estudo da história. A análise destas duas publicações permite-nos apreciar o desenvolvimento e a aplicação da teoria económica por Hicks”, explicou Lemieux.
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Um dos princípios que norteavam as teorias de Hicks, conforme ele próprio indicava, residia na convicção de que a teoria económica é capaz de elucidar as razões pelas quais, nas suas linhas gerais, a história se desenrolou de determinada maneira. Para Hicks, isso auxilia o analista a preencher vazios sempre que os registos históricos ou arqueológicos se apresentem escassos ou fragmentados, considerando que, por detrás das acções humanas, subjaz sempre uma lógica económica.
Os quatro grandes contributos de Hicks
O economista britânico John Hicks é conhecido por quatro contributos. O primeiro é a introdução da ideia de “elasticidade de substituição”. Embora o conceito seja difícil de explicar em poucas palavras, Hicks utilizou-o para mostrar, contrariamente às alegações marxistas, que o progresso técnico que poupa trabalho não reduz, necessariamente, a parte do trabalho no rendimento nacional.
O modelo IS-LM criado por Hicks ilustra a interacção entre o mercado de bens e de fundos disponíveis para empréstimos
O seu segundo grande contributo é a invenção do chamado modelo IS-LM, uma representação gráfica do argumento que John Maynard Keynes apresentou na sua “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, em 1936, sobre como uma economia poderia estar em equilíbrio com menos do que o pleno emprego. Hicks publicou-o num artigo de jornal um ano após a publicação do livro de Keynes. Parece seguro dizer que a maioria dos economistas se familiarizou com o argumento de Keynes ao ver o gráfico de Hicks.
Por outras palavras, o modelo IS-LM criado por Hicks foi concebido para ilustrar a interacção entre o mercado de bens económicos e o mercado de fundos disponíveis para empréstimo, também conhecido como mercado monetário. O primeiro é designado por IS (Investimento-Poupança), enquanto o segundo é referido como LM. Este modelo é representado num gráfico onde as curvas IS e LM se intersectam, indicando o ponto de equilíbrio de curto prazo entre as taxas de juro e o produto. É frequentemente utilizado para demonstrar como alterações nas preferências de mercado influenciam o equilíbrio das taxas de juro e do Produto Interno Bruto (PIB).
O terceiro grande contributo de Hicks é a sua obra “Value and Capital”, publicada em 1939, na qual demonstrou que grande parte do conhecimento prevalecente entre os economistas da época sobre a teoria do valor pode ser inferida sem necessidade de pressupor que a utilidade é quantificável. Este livro representou também um dos pioneiros estudos sobre a teoria do equilíbrio geral, abordando como todos os mercados se ajustam e atingem um estado de equilíbrio.
O quarto contributo significativo de Hicks é a concepção do teste de compensação. Antes deste teste, os economistas relutavam em afirmar que um determinado resultado era preferível a outro, dado que mesmo uma política que beneficiasse milhões poderia, simultaneamente, prejudicar alguns. Por exemplo, o livre comércio de automóveis beneficia milhões de consumidores americanos em detrimento de milhares de trabalhadores e detentores de acções de empresas automobilísticas americanas. Como poderia, então, um economista determinar se os benefícios a alguns superavam os prejuízos a outros? Hicks propôs a questão de os beneficiados poderem compensar os prejudicados por todo o seu sofrimento e, mesmo assim, saírem beneficiados. Caso a resposta fosse afirmativa, então a política satisfaria o “teste de compensação de Hicks”, mesmo que a compensação nunca fosse efectivamente realizada. No caso dos automóveis, os economistas podem demonstrar que os ganhos em dólares para os compradores daqueles excedem largamente as perdas para os trabalhadores e accionistas, logo, segundo o teste de compensação de Hicks, o comércio livre é vantajoso.
Texto: Celso Chambisso • Fotografia: D.R