Quem é a Consultora Chamada Para Ajudar Moçambique a

Quem é a Consultora Chamada Para Ajudar Moçambique a

advertisemen tO governo contratou a empresa norte-americana Alvarez & Marsal para apoiar a estratégia de gestão da dívida pública até 2029. A promessa é aliviar a pressão financeira, melhorar o relacionamento com credores e recuperar credibilidade. Mas o impacto dependerá menos do nome da consultoria e mais da capacidade do Estado de executar reformas difíceis. A decisão do Governo moçambicano de contratar a Alvarez & Marsal (A&M) para apoiar a gestão e eventual reestruturação da dívida pública mostra que o problema não pode mais ser tratado apenas como um exercício administrativo. O que está em jogo é uma pressão real sobre as contas públicas, em um país que segue convivendo com as sequelas do caso das dívidas ocultas, com margem fiscal curta e com acesso internacional a financiamentos ainda longe da normalidade. Segundo a informação tornada pública, a consultoria foi chamada para apoiar a implementação da estratégia de gestão da dívida 2025-2029, incluindo trabalhos de reestruturação, negociação com credores e melhoria do perfil de risco da carteira do Estado. Em termos práticos, isso poderia significar apoio técnico para reperfilar vencimentos, reduzir pressão de curto prazo sobre o serviço da dívida, organizar melhor a relação com credores e reforçar a capacidade do Ministério da Fazenda nessa matéria. Quem é Alvarez & Marsal? Alvarez & Marsal não é uma consultoria típica de diagnóstico e recomendações genéricas. Fundada em 1983, em Nova York, a firma construiu reputação internacional em contextos de crise, reestruturação e transformação, atuando em situações em que empresas, instituições ou governos precisam de soluções rápidas, operacionais e executáveis ​​e ficou conhecida justamente por entrar quando os métodos tradicionais não bastam mais. Seu posicionamento é baseado na ideia de execução: não apenas aconselhar, mas ajudar a reorganizar ativos, redesenhar estruturas financeiras, negociar com credores e acompanhar decisões até o terreno. Ao longo das últimas décadas, a A&M cresceu para dezenas de países e consolidou presença em setores tão distintos quanto bancos, energia, indústria, consumo, administração pública e reestruturação financeira. Mais recentemente, também reforçou sua prática de assessoria soberana, destinada a apoiar países com problemas de dívida, liquidez e sustentabilidade fiscal. Também é importante entender quem está por trás dessa prática soberana da firma. O braço de assessoria estatal da A&M é liderado por Reza Baqir, ex-governador do banco central do Paquistão e ex-alto executivo do FMI. Segundo a própria A&M, Baqir chefiou no Fundo a divisão de política de dívida e trabalhou em reestruturações soberanas como Grécia, Jamaica e Ucrânia, além de liderar negociações no Clube de Paris. Esse detalhe não prova, por si só, o sucesso do mandato moçambicano, mas mostra que a firma tentou montar uma oferta com experiência direta em dívida soberana e relação com credores multilaterais e oficiais. Por que Moçambique a contratou? O racional da contratação parece claro: o Estado precisa melhorar a forma como gerencia uma dívida que continua a pesar fortemente sobre as finanças públicas. O objetivo imediato não será “apagar” a dívida, o que seria irreal, mas torná-la mais gerenciável. Se a consultoria conseguir ajudar o Estado a alongar prazos, suavizar o cronograma de pagamentos, melhorar condições de financiamento e estruturar melhor o diálogo com os credores, isso pode liberar alguma folga orçamentária. Em teoria, essa margem permitiria ao Governo reduzir pressão sobre a tesouraria e proteger a despesa em áreas mais sensíveis, como saúde, educação e infra-estruturas. Há igualmente uma dimensão reputacional. Depois de anos de deterioração da confiança, qualquer sinal de maior profissionalização na gestão da dívida pode ser útil na relação com credores bilaterais, multilaterais e investidores. Nessa leitura, a contratação da A&M também serve como mensagem: Moçambique quer mostrar que está tentando tratar o problema com instrumentos mais especializados. O que o País pode ganhar — e o que não deve esperar Os benefícios potenciais existem, mas convém mantê-los na escala certa. A presença de uma consultoria com experiência internacional pode trazer três ganhos principais. O primeiro é técnico. Reestruturar ou otimizar dívidas exige capacidade analítica, conhecimento de mercado, leitura jurídica e experiência de negociação. Nem sempre essa combinação existe, com profundidade suficiente, dentro do aparelho estatal. O segundo é institucional. Se o trabalho for bem conduzido, a consultoria pode ajudar a deixar processos, metodologias e instrumentos que reforcem a autonomia futura do Ministério da Fazenda. O terceiro é externo. Um processo mais crível e mais bem preparado tende a melhorar a percepção de risco, ainda que de forma gradual. Mas há um limite importante: nenhuma consultoria resolve, sozinha, um problema estrutural de finanças públicas. A&M pode ajudar a negociar melhor, organizar melhor e decidir melhor. Não pode substituir disciplina fiscal, controle de gastos, aumento da arrecadação, transparência nas contas públicas e prudência na gestão de riscos do Estado e das empresas públicas. Dito de outra forma: se a consultoria não vier acompanhada de medidas políticas consistentes, seu efeito será inevitavelmente parcial. A intervenção da Alvarez & Marsal deve igualmente contribuir para a melhoria do perfil de risco da dívida pública Uma ajuda relevante, mas não milagrosa É aqui que importa separar expectativa de realidade. O nome da A&M pode adicionar competência, método e musculatura de negociação. Isso não é irrelevante. Mas a eficácia do mandato dependerá da margem política do Governo para tomar decisões difíceis e da consistência com que essas decisões forem executadas. Em um país onde a dívida pública continua sendo um tema delicado, a entrada de uma consultoria internacional pode ser vista como sinal positivo de pragmatismo. Ainda assim, será o resultado concreto — menor pressão financeira, melhor organização dos pagamentos, maior previsibilidade e fortalecimento institucional — que dirá se a operação produziu valor ou se foi apenas mais uma tentativa cara de administrar um problema fundamental. No essencial, Moçambique pode se beneficiar, sim. Mas você se beneficiará apenas se usar essa contratação como instrumento de correção estrutural, e não como substituto da política econômica. Cases que ajudam a entender o perfil da consultoria Lehman Brothers (Estados Unidos)Foi um dos cases mais midiáticos associados à A&M. Após a falência do banco, a consultoria participou da gestão e reorganização de ativos, ajudando a maximizar recuperações para credores em um processo de enorme complexidade. Varig e Parmalat (Brasil)No mercado brasileiro, a firma ganhou notoriedade com intervenções em processos de recuperação e reorganização financeira de empresas em crise, incluindo desenho de soluções operacionais, renegociação e racionalização de ativos. AtentoA A&M esteve ligada ao processo de reestruturação financeira da empresa, apoiando cenários de reorganização e avaliação de retornos para credores, em um contexto de alta pressão financeira. Setor público e entidades estatais A A&M tem casos práticos em agências públicas, programas estatais e entidades do setor público, sobretudo nos EUA, ligados a saneamento financeiro, reorganização institucional, controle orçamentário e eficiência operacional, embora não seja conhecido nenhum caso equivalente a uma reestruturação da dívida de um Estado soberano.advertisement

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