Quando a Economia Esquece as Mulheres • Diário Económico

Quando a Economia Esquece as Mulheres • Diário Económico

advertisemen tNo mês em que se celebra a mulher moçambicana, visitamos o pensamento de Nancy Folbre, a economista que deu atenção às horas de trabalho invisíveis de milhões de mulheres que mantêm a economia funcionando, mas estão fora das estatísticas. Nancy Folbre, economista norte-americana, foi pioneira ao demonstrar que o trabalho não remunerado não é periférico à economia, mas sim uma de suas bases silenciosas. Cuidar de crianças, idosos, doentes ou cuidar da gestão da casa permaneceu fora do radar. Foi justamente contra essa “cegueira” estrutural que Folbre se insurgiu. Os trabalhadores só chegam ao emprego porque alguém cuidou deles, os alimentou, educou e protegeu. Porque alguém sustentou sua reprodução social. Ao longo de sua carreira acadêmica, Nancy Folbre questionou a neutralidade de gênero da economia e expôs o viés implícito de modelos que tratam o “cuidar de outros” como um “recurso inesgotável”, sempre disponível, sendo quase sempre fornecido por mulheres. O cuidado como pilar invisível da produção Um dos conceitos centrais no pensamento de Nancy Folbre é o da “economia do cuidado”. Para a autora, o cuidado não é apenas uma atividade privada ou moral. É um bem econômico com características próprias: gera externalidades positivas, produz benefícios sociais de longo prazo e não responde facilmente à lógica do lucro. O problema, destaca Folbre, é que os mercados tendem a desvalorizar o cuidado, porque quem cuida raramente captura os benefícios totais de seu trabalho. Educar uma criança saudável e capaz beneficia toda a sociedade, mas o custo recai quase exclusivamente sobre quem cuida, geralmente mulheres. Em livros como The Invisible Heart (O Coração Invisível, 2001) e Greed, Lust and Gender (Ganância, Luxúria e Gênero, 2009), Folbre desmonta a ideia de que os indivíduos agem apenas por interesse próprio e mostra como a cooperação, a empatia e a responsabilidade social são forças econômicas reais, embora mal medidas. Ignorar essas dimensões, ele argumenta, distorce políticas públicas, sistemas fiscais e decisões de investimento. Moçambique: quando a teoria encontra a realidade Em Moçambique, as idéias de Folbre ganham uma nitidez particular. Dados produzidos por organizações da sociedade civil, centros de pesquisa e plataformas como o Fórum Mulher mostram, de forma consistente, que as mulheres suportam a maior parte do trabalho não remunerado, especialmente em áreas rurais e suburbanas. Cuidar da família, acompanhar crianças e idosos, garantir a coesão doméstica, tudo isso consome tempo, energia e às custas de oportunidades econômicas Cuidar da família, garantir água, lenha, comida, acompanhar crianças e idosos, garantir a coesão doméstica são atividades que consomem tempo, energia e obrigam a deixar de lado outras oportunidades econômicas. O resultado é uma dupla penalização: menos tempo para o trabalho remunerado e menor reconhecimento social pela contribuição econômica real. O mercado de trabalho moçambicano continua marcado por desigualdades salariais, alta informalidade e fraca proteção social, afetando desproporcionalmente as mulheres. O que Folbre descreve em termos teóricos se manifesta, em Moçambique, como uma experiência cotidiana. Emancipação e sobrecarga Uma das forças (e também uma das tensões) do pensamento de Nancy Folbre está em sua recusa em romantizar o cuidado. Reconhecer seu valor econômico não significa aceitar que ele continue a ser atribuído quase exclusivamente às mulheres. Aqui surge uma contradição central: como valorizar o cuidado sem reforçar a divisão tradicional de gênero? Como transformar reconhecimento em redistribuição de tempo, de recursos e de responsabilidades? Em Moçambique, essa questão é particularmente sensível. Muitas políticas de emancipação econômica da mulher promovem o empreendedorismo e a inserção no mercado, sem aliviar a carga doméstica. O resultado é uma emancipação incompleta: mais participação econômica, sim, mas muitas vezes à custa de jornadas mais longas e maior esgotamento. Folbre alerta para esse risco. Segundo a economista, a igualdade econômica exige acesso ao mercado, mas também uma reorganização social do cuidado, envolvendo Estado, mercado e homens. O Estado, o mercado e o que fica no meio Outro ponto crítico frequentemente debatido do pensamento de Folbre é o papel do Estado. A autora defende políticas públicas ativas: licenças parentais, serviços de cuidados acessíveis, investimento em educação e saúde e sistemas fiscais que reconheçam o valor do trabalho reprodutivo. Os críticos argumentam que essa abordagem pode gerar dependência excessiva do Estado ou sobrecarregar finanças públicas frágeis. Em países como Moçambique, onde os recursos são limitados e as prioridades concorrentes, o debate se torna ainda mais complexo. Ainda assim, a reflexão permanece pertinente: quem paga o custo de não investir no cuidado? A resposta, muitas vezes, vem na forma de desigualdade persistente, pobreza intergeracional e baixa produtividade no longo prazo. Pensar a mulher para além das estatísticas Celebrar o Dia da Mulher Moçambicana, em 7 de abril, não deve ser apenas relembrar conquistas históricas ou reforçar discursos simbólicos. Deve ser também um convite para questionar os fundamentos econômicos que continuam a tornar invisível grande parte da contribuição feminina. Nancy Folbre não oferece respostas simples (e talvez essa seja sua maior contribuição). Seu pensamento obriga a economia a olhar para o que prefere não medir e a política a enfrentar custos que não aparecem nos orçamentos, mas pesam diariamente na vida das mulheres. Num país onde o desenvolvimento tem que passar, inevitavelmente, pela inclusão efetiva da mulher na economia, pensar o cuidado como um valor econômico (e não como um obstáculo) pode ser um passo decisivo para um crescimento mais justo, mais realista e mais sustentável. Texto Celso Chambisso • Fotografia DRa dvertisement

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