“Antecipar é essencial”. Famílias tentam baixar prestação

Quem tem crédito imobiliário com taxa variável deve ver um aumento nas prestações a pagar ao banco nos próximos meses, já que o Banco Central Europeu (BCE) se prepara para subir as taxas de juros. Por isso, as famílias estão recorrendo mais aos intermediários de crédito para tentar baixar o valor mensal que pagam aos bancos, em antecipação à decisão da instituição liderada por Christine Lagarde. “Os dados mais recentes indicam que o BCE poderá iniciar altas graduais das taxas já em junho, caso a inflação volte a pressionar a economia europeia. Para quem tem crédito imobiliário, isso significa que antecipar decisões é essencial”, explica João Lemos, diretor de operações do Poupança no Minuto/FinanceFy, empresa de intermediários de crédito. Com o possível aumento dos juros já no próximo mês, há cada vez mais famílias que tentam, portanto, baixar agora a prestação que pagam ao banco. João Lemos confirma essa tendência: “Diariamente temos recebido, de forma crescente, mais pedidos de colaboração para analisar a situação financeira global das famílias e as suas responsabilidades, permitindo ajudar a poupar e reorganizar o orçamento de várias famílias com crédito habitação e créditos pessoais”. Sem dar números, o diretor de operações do Poupança no Minuto/FinanceFy revela, ainda assim, que essa demanda é “consistente com o comportamento do mercado”, já que “períodos de instabilidade e expectativa de alta das taxas aumentam a procura por transferências de crédito e renegociação de condições”. “A volatilidade recente da Euribor reforça essa tendência”, concretiza João Lemos. Vale lembrar que as taxas Euribor – que servem de referência para quem tem crédito imobiliário com taxa variável – terminaram abril com a média mensal avançando significativamente nos três prazos. Como os bancos estão reagindo? O que poderia acontecer? Em momentos como este, “os bancos tendem a ajustar principalmente o spread em novos contratos, acompanhando o custo de funding e o risco de crédito”, esclarece João Lemos, acrescentando que, “em 2026, prevê-se um ligeiro aumento dos spreads, refletindo a incerteza econômica e a necessidade de proteção das instituições financeiras”. Questionado se podemos traçar um paralelo entre o cenário atual e o vivido há dois anos, o especialista em intermediação de crédito revela que o “contexto atual é diferente” e explica: “Em 2026, a expectativa dominante é de estabilidade, com a Euribor a rondar os 2% ao longo do ano, sem oscilações abruptas como as de 2022/2023. O BCE tem sinalizado uma postura mais prudente, mantendo taxas estáveis desde meados de 2025 e avaliando cuidadosamente o impacto da inflação antes de novos aumentos.” Por isso, considera “pouco provável que se repitam subidas tão rápidas como as de dois anos atrás, mas pequenas subidas graduais são possíveis”. O que as famílias podem fazer? Para responder à pergunta sobre o que podem fazer as famílias que querem tentar reduzir a prestação a pagar ao banco, João Lemos deixou algumas pistas: “Amortizar capital antes da revisão da taxa, reduzindo o impacto da Euribor; renegociar sua taxa fixa ou spread com seu banco ou mesmo transferindo o crédito para outro banco sem custos; rever o prazo de amortização do empréstimo, aliviando a prestação mensal (embora aumente o custo total); revisitar os produtos de bonificação obrigatórios com o banco, nomeadamente o seguro de vida e seguro de casa, permitindo negociar o preço com outras companhias seguradoras e criar uma reserva financeira equivalente a três a seis meses de prestações”. Segundo os dados mais recentes do Banco de Portugal (BdP), a taxa fixa apresentou a maior taxa de juros entre as novas operações (3,72%), seguida pela taxa variável (2,85%) e pela taxa mista (2,71%). Porém, em fevereiro, 76% dos novos empréstimos habitacionais foram contratados a taxa mista, 22% com recurso a taxa variável e 2% a taxa fixa. O especialista esclarece a tendência: “A taxa mista pode ser uma solução equilibrada em momentos de incerteza e garantir a proteção financeira do agregado familiar”, uma vez que “protege no curto prazo com uma taxa fixa inicial” e “permite beneficiar de quedas futuras quando transita para variável”. “Em um cenário de volatilidade moderada e Euribor estável, essa opção dá previsibilidade sem ‘fechar’ o contrato a uma taxa prefixada alta”, conclui. O BCE manteve, na semana passada, os juros, mas a maioria dos analistas de política monetária prevê um aumento em junho da Selic sobre depósitos bancários em um quarto de ponto percentual, para 2,25%. A próxima reunião de política monetária do BCE será realizada nos dias 10 e 11 de junho em Frankfurt, Alemanha. Leia Também: Analistas consultados pelo BC preveem alta das taxas em junho



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